[Antes de começar, leia as duas primeiras partes: Parte I e Parte II]
Pedro: ALÔ, alô...
Felipe: Pedro?
Pedro: sim. Felipe?
Felipe: tudo bem, cara?
Pedro: não sei. Está?
Felipe: olha, acabei de chegar em casa. Houve um atraso imenso no horário do meu vôo...
Pedro: ...vamos nos encontrar? Eu adormeci enquanto esperava a sua ligação, mas posso tomar um banho rápido e te pegar aí.
Felipe: então... (pausa)... Como eu tava falando, cara. Esse estresse de aeroportos me deixou cansado.
Pedro: ok. Façamos o seguinte: fique em casa e descanse. Amanhã combinaremos algo. Eu ligo para você.
Felipe: combinado.
Pedro: até amanhã. Descansa, tá? Beijo.
Felipe: até amanhã. Beijo.

No dia seguinte, Pedro acordou cedo e disposto. Um sábado lindo de sol forte deu-lhe motivação para uma atividade física no calçadão da praia.

Após uma corrida, mergulhou no mar, bebeu água de coco e, sentado na beirada do calçadão, voltou a pensar em Felipe. Mas de uma forma diferente. Teve a nítida sensação de que os pensamentos de ontem a noite serviram-lhe de alerta. Havia algo no ar não percebido até então.

Era como se a sua mente tivesse agido como aquelas reuniões de trabalho para apresentação de um projeto de engenharia. Na primeira, sempre são tratados os assuntos atraentes, o lado vistoso da obra: localização, paisagens, facilidades de venda e etc. Os controversos sempre são deixados para o dia seguinte: conflitos com o meio ambiente, materiais, preços, etc. Até ontem, ao acordar, nenhum pensamento poderia dissuadi-lo da noção de que estavam ambos apaixonados ou de que algo pudesse dar errado. Mas as reflexões de ontem a noite reveleram que não era bem assim.

Quase no final da tarde, Pedro ligou para Felipe combinando de se verem n´outro bar e restaurante. Mais descontraído, uma bela vista da praia e próximo de onde ambos moravam.

Assim que chegou, Pedro se surpreendeu com a quantidade de gente e mais ainda ao ver Felipe já instalado numa das mesas. Estava diferente. Sério e de cabeça baixa, mexia sem parar no ornamento central da mesa. Assim que o viu, cruzou os braços na altura do peito e com um leve sorriso cumprimentou Pedro.

Felipe: tudo bem?
Pedro: comigo está e com você? Parece tenso.
Felipe empurrou o corpo para trás, encolheu-se na cadeira e, desviando o olhar para o ambiente, comentou sobre a quantidade de pessoas no restaurante.
Pedro: !!
Esfregando as mãos uma na outra, finalmente Felipe respondeu: está tudo bem, mas ainda cansado da viagem.
Pedro: cara, eu poderia expor os motivos que me levam a crer que não está tudo bem. Mas, como eles dizem respeito a você, acho que seria melhor você falar. Você tem alguém?
Felipe, coçando os olhos, tom pouco expressivo, respondeu: não, cara, eu não tenho alguém. Não é isso..
Pedro: certo. Pelo menos você admitiu que há um motivo.
Felipe: foi empolgação de nossa parte. Uma aventura. Eu...
Pedro: ...fale apenas por você, Felipe.
Felipe, a esta altura impaciente e sempre olhando ao redor disse: eu não posso demorar, Pedro. Tenho um compromisso...
Pedro: achei que o seu compromisso fosse comigo, mas já estou convencido do que eu busquei hoje aqui. Não se preocupe mais. Vá ao seu compromisso. Eu também preciso sair daqui. 

Pedro entrou em casa sem ascender a luz. Foi até a varanda, sentou e aconhegou-se no conforto da poltrona. Mãos para trás da cabeça, cruzou as pernas e passou a admirar dali, do alto do décimo sexto andar da varanda do seu apartamento, as luzes dos edifícios vizinhos, tão ou mais altos que o seu, que diminuíam a escuridão daquele ambiente sombrio e silencioso.

A sensação de dever cumprido parecia estranha naquela situação, mas era exatamente o que lhe passava pela cabeça. Afinal, tudo na vida acontece como numa reunião de trabalho
                                                            F I M

Sinais (indicativos) de linguagem corporal no texto acima:
1.Cabeça baixa: desânimo. Mais ainda se com as mãos no bolso.
2. Cruzar os braços na altura do peito: defensiva.
3. Encolher-se na cadeira: no ato da mentira a pessoa tende a retrair-se, encolhendo os braços e as pernas.
4. Esfregar as mãos uma na outra: ansiedade ou atencipação.
5. Esfregar os olhos enquanto fala: dúvida ou mentira.
6. Pouca expressão: o mentiroso tende a dar pouca ênfase às palavras ditas. A expressividade é reduzida.
7.  "Eu não tenho alguém": foi a resposta de Felipe ao ser indagado por Pedro se o motivo do seu desinteresse era este. O mentiroso tende a responder usando as mesmas palavras da pergunta: "você tem alguém? Não. Eu não tenho alguém."
8. Mãos para trás da cabeça e pernas cruzadas: confiança, superioridade.


Foto: 1. "Businessman Using a Palm Pilot",  de Leonardo Demetrius (Flickr).

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