Uma coisa que sempre chama a atenção em héteros homofóbicos é a contradição e a hipocrisia. As palavras que eles verbalizam não batem com as ações, especialmente quando se trata de grana.

Eles depreciam e zombam de gays. Os religiosos fundamentalistas dizem que os gays são errados na vida e pecadores, mesmo que jamais reflitam de fato se a pessoa é assim porque quer ou porque não tem opção. Quando se trata de botar a mão no pink money aí o dinheiro é santo.

Quantas famílias são direta ou indiretamente sustentadas por gays e, em alguns casos, elas não os enxergam como pessoas comuns? Onde está a coerência e a ética? Aqui: se não te aceito como pessoa, também não quero teu dinheiro.

Ah, mas grana é outra coisa, dizem sempre.

Há alguns anos, um amigo mineiro, Gustavo, e seu então marido Guilherme, gaúcho, viviam em Brasília. Ambos tinham pouco menos de trinta anos, tinham bons empregos e moravam num confortável apartamento que adquiriam juntos.

Guilherme um dia sai de férias, pega o carro e vai visitar os pais e os irmãos homofóbicos, em Porto Alegre. Quase chegando, envolveu-se num acidente automobilístico e morreu no local.

Não havia celular nessa época ou era algo ainda no começo. Durante a viagem, os contatos se limitavam a ligações noturnas quando Guilherme parava para dormir em algum hotel. A partir do terceiro dia, Gustavo não recebeu mais as ligações.

Pensamentos ruins surgiam na mente de Gustavo que não fazia ideia do que estava acontecendo. Teria sido seu marido vitimado em um acidente? Guilherme jamais sumia assim.

Bateu o desespero, mas Gustavo cumpriu o que prometera a Guilherme: não procurá-lo enquanto não receber sua ligação que deveria ocorrer após finalmente contar para a família a relação dos dois família. A família sabia de sua condição sexual, mas fingia desconhecer.

Dez dias depois, Gustavo ligou. Secamente, a família contou-lhe que Guilherme estava morto e enterrado. A missa de sétimo dia ocorrera no dia anterior.

O choque de Gustavo foi tão intenso que ele nem desligou o telefone. Ficou em estado quase catatônico no chão do quarto, com o telefone na mão sabe-se lá por quanto tempo. Encontrado pela irmã horas depois - preocupada com a linha sempre ocupada -, ele acabou hospitalizado por depressão profunda.

Após a alta do hospital, o viúvo não teve coragem de voltar para a casa onde o casal havia vivido dois anos felizes. Depois de uma semana finalmente decidiu que poderia enfrentar o inevitável. Foi ao imóvel, cumprimentou o porteiro e subiu. Mas a chave não abria a porta.

Conferiu de novo, e de novo. Nada. Desceu, falou com o porteiro, perguntou se alguém havia estado lá.

– Olha, seu Gustavo, estiveram aqui um senhor e uma moça. Disseram que são pai e irmã de seu Guilherme. Levaram um monte de coisa. Disseram que se o senhor perguntasse algo, era pra dizer que o sr não pode mais morar aqui. Eles tinham as chaves, procuraram o síndico e se entenderam com ele.

A família de Guilherme, que nunca quis saber da vida do filho; que sabia, mas fingia não conhecer Gustavo e que sempre fez de conta que não sabia o que rolava entre os dois, foram de Porto Alegre a Brasília para se apoderarem de tudo que quiseram. Deixaram apenas as roupas em malas e pediram para entregar ao Gustavo.

Ainda com o inventário tramitando, a família de Guilherme anunciou a venda do imóvel. Estava apenas em nome do falecido porque a compra foi financiada na Caixa Econômica e a burocracia era menor do que se Gustavo entrasse na negociação.

O casal não registrou a relação homoafetiva em cartório e Guilherme não deixou testamento onde podia ter destinando parte da herança para Gustavo (disponível: 50% do total). 

A família homofóbica e hipócrita, mostrou-se ética e moralmente desonesta na partilha dos bens. Levaram tudo. Não aceitavam o filho gay, muito menos seu companheiro, mas passaram a mão nos bens de Gustavo e Guilherme. Claro, tudo isso com muitas rezas em memória da alma pecadora de Guilherme para 'lavar' as consciências.

Gustavo brigou na justiça com a família de Guilherme e levou uma indenização. Ele Prefere esquecer a família que lhe roubou dinheiro e o direito de enterrar seu marido.


Observação: o texto acima é uma adaptação. O conteúdo e forma original estão publicados no blog Conversas Ao Pé do Mundo. Reprodução autorizada pelo autor Alex Martini.

Foto: "Credit Trap, Predatory Lending, Man Caught", de Leo Blanchette (Flickr).

4 comentários:

  1. Pois é, meu caro. Confirmo a história, que é verdadeira. Mudei os nomes, e alguns detalhes, apenas.
    A falsa aceitação dos filhos gays por razões econômicas também é relatada por Roldão Arruda, nas resumidas biografias das vítimas do maníaco do Trianon, no livro "Dias de Ira".

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  2. Oi Alex, te enviei um direto no twitter, mas vc não respondeu e resolvi publicar o texto com algumas (poucas) alterações, sem afetar o tema central. Somente as passagens com referências ao direito sucessório sofreram mudanças mais significativas.
    Que bom ter gostado.
    Obrigado.

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  3. Eu tb gostei do texto.Achei triste tudo isso...

    Cada dia que passa eu fico mais indignado com esse governo sujo e hipócrita que temos.
    Casamento civil deveria ser um direito de todos os cidadãos.

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