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"Não podemos escolher os filhos que vamos ter, mas podemos decidir qual o tipo de pais que vamos ser."
Depois de muitas séries hormonais para conseguir engravidar, desisti. Simplesmente desencanei. 

Passaram-se alguns meses e comecei a ter umas enxaquecas acompanhadas de dor no ovário direito. Fui fazer uma ultra dizendo que meus cistos deviam estar aumentados e fiquei sabendo que meu cisto nasceria em seis meses.

Apesar da preocupação por ter tomado todos os analgésicos do mundo e estar com quase 34 anos, decidimos que não faríamos nenhum exame invasivo. Nada que colocasse em risco a gravidez tão desejada. 

Nem saber se o baby tinha Síndrome de Down quisemos. Queríamos nosso filho, aquele que já estava ali, seria bem vindo do jeito que viesse. Já sabíamos que seria um menino. Bastou.

Preparamos um quarto decorado em vários tons de azul para receber o nosso meninão. Fui para a maternidade como quem vai para uma festa. Vi meu filho nascer grande, lindo. Só me preocupava em saber se ele era perfeito. Naquele momento, mais uma vez, bastou.

Culturalmente é assim. Mesmo as mães maduras, sabedoras de que uma gravidez é uma aventura cheia de mistérios, onde se lida com o inesperado, tem certas questões nas quais nem pensamos: o filho pode ter nanismo, síndromes diversas, tendências a problemas psíquicos, desequilíbrio químico, timidez, temperamento violento, má formação em algum órgão, hiperativo, bissexual, trans, gay, superdotado, ter deficiências  intelectuais ou motoras,  surdez,  enfim, pode ter diferenças.

Decidi começar assim a minha história porque é importante divulgar o óbvio: quando alguém decide ter ou adotar uma criança há que se pensar que esta pode trazer heranças genéticas - desta ou de outras vidas, para quem acredita -, ou, na melhor das hipóteses, o filho chega com nada além do convencional. 

Ainda assim, aquela pessoa é única e diferente da mamãe e do papai. Pode não ser aquele bebê lindo com o qual é normal sonhar. O exercício da maternidade/paternidade é fundamentalmente um processo de descoberta, de crescimento, de troca e aprendizado mútuo. Os valores culturais e familiares são ensinados àquele ser dentro de um subprocesso que é o de adaptação dos pais ao filho e vice-versa. 

Se pensarmos bem, sair da barriga e entrar na família é o primeiro processo de inclusão pelo qual o ser humano passa.

Toda gravidez deveria ser planejada e acontecer no momento de maturidade dos pais, mas na impossibilidade de ser assim é bom enfatizar que é uma aventura, um encontro com o desconhecido que pode ser a melhor experiência da vida ou causar grande frustração quando as expectativas não são alcançadas.

Meu bebê causava impacto onde chegávamos: grandão, cabeludo, olhos claros, perfeito. Impressionava pela beleza e nos enchia de orgulho. Mas não precisou mais de dois anos para eu perceber que ele era diferente, que poderia ser gay ou trans. Entendi isso quando comecei a escrever esse texto.

Uma frase que li em algum lugar que não me lembro: “não podemos escolher os filhos que vamos ter, mas podemos decidir qual o tipo de pais que vamos ser". Faz toda a diferença.

Até a próxima quarta-feira.
Cássia IG
(contato: papodemaeig@gmail.com)
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11 comentários:

  1. fiquei arrepiado! e com vontade de mais.

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  2. Estava na estaçao de trem,voltando pra casa hoje e vi uma mae com 3 filhos:duas meninas (uma de uns 9 anos e a outra de 6 anos) e um menino de uns 5 anos.A menina menor aparentava ter Síndrome de Down.Esperando o trem chegar,fiquei observando e admirando aquela mae tao paciente e amável.

    Eu ia comentar sobre meu nascimento.Esse fato de hoje é mais adequado e deixo o Ju curioso pra saber.kkkkkk.Brinks.

    Beijos,Cássia e Ju.

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  3. Cássia vc é maravilhosa em suas contextualizações! Sentimento forte e aflorado. Verdades jogadas na cara ... é isto ... AMEI!

    Bjão a vc e ao Junior!

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  4. Obrigada por terem vindo aqui. Quarta tem mais....

    Lobinho, eu quero saber a história do seu nascimento e acho que o momento é esse. Conta para nós.

    Beijos

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  5. Cássia,outros oportunidades surgirao e contarei. :D
    Beijos.

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  6. Adorei a coluna! Linda a forma que você escreve. Tenho certeza que muitos vão aprender com vc!Parabéns! Divulguei sua coluna em TOOOOODAS as redes sociais que participo! Muita gente merece ter acesso à sua história.
    Um beijo
    Rê ou Joselitando (como preferir) rs!

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  7. Rê, que bom que chegou aqui! Como uma amiga que convive comigo, me conhece muitíssimo bem, conhece a minha família e história, além de ser uma leitora que escreve muito bem, a sua crítica literal é muito importante para mim. Joselite muito por aqui minha querida.

    Beijo e muito obrigada.

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  8. Eu não sou totalmente heterossexual, mais também não sou homo. Sou mulher e acho que todos deveriam ter o que se acha mais prazeroso... Preconceito sobre nós sempre vai existir, mais acho que uma maneira de supera-lo é não ter vergonha de assumir o que é! Sou bissexual, rejeitada por boa parte da minha "família" e tenho um namorado que me aceita assim... Eu achei meu lugar com ele, depois de ter contado a todos que me interessava por homens e mulheres. E pra maioria foi um espanto, porque eu sempre tive namorados e não namoradas, mais aconteceu e hoje sou feliz com meus relacionamentos... Já que moro com meu namorado mais tenho uma companheira que também vive conosco. E o melhor conselho que eu deixo para todos os preconceituosos, e que conheça antes de julgar as pessoas. Se coloque por um segundo no lugar dela e veja o que lhe convém, e se não for o mesmo dela.. Simplesmente respeite! Beijos, Larissa H.

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  9. Adorei a postagem, a forma como você escreve é maravilhosa, toca as pessoas de uma meneira linda... Adorei o post e estou ansioso por mais.

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  10. Larissa,
    Sinceramente, acho os bissexuais o top de linha da sexualidade. Se eu pudesse escolher, seria "bi".

    Bacana você se assumir e mais bacana ainda viver como vive. Eu sempre digo que, sendo de acordo com as partes, vale tudo. Obrigada pela participação.

    Anônimo,

    Tenho um limite de linhas para respeitar. Se o junior deixar, eu escrevo um livro aqui...rsrsrsr

    Toda quarta escreverei um pouquinho e assim vamos todos nos conhecendo mais. Obrigada por ter vindo aqui.

    angre,
    Que grande incentivo! Muito obrigada. Quarta tem mais. Te aguardo.

    Beijos a todos e muito obrigada.

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