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Ao mesmo tempo em que o meu filho brincava de bonecas, que só gostava de estar entre meninas, que se travestia e não se interessava por nada do mundo masculino, ele vivia apaixonado. A cada ano era uma menina nova e a paixão era intensa.

Sempre fui uma mãe muito apaixonada, daquelas que beijam o filho o tempo todo. Eu notava que ele repetia esse padrão com as professoras e as moças com as quais convivia. Com as meninas menores que ele rolava amizade, com algumas havia uma espécie de paixão. 

Até hoje, quando ele está com alguma amiga minha ou com a mãe de amigos, não demora muito e já está pegando no cabelo da “tia”, estabelecendo vínculos físicos.

O pai também é meloso, do tipo que adora beijar, abraçar, dormir agarrado, mas o Ju nunca gostou de contato físico com ele. Detestava barba e não permitia contato com quem espetasse. 

Me lembro dele bem pequeno, dois anos, empurrando o pai que tentava abraçá-lo. O pai tocando no próprio rosto disse: - Olha filho, fiz a barba. Papai está macio. Não adiantava. 

Eu ficava preocupada e sentida porque o pai sempre foi um paizão. Mas eu não interferia. Era a relação dos dois e eu não sabia como ajudar. Eles sempre foram próximos, mas Ju nunca estabeleceu com o pai o mesmo tipo de relação física que tinha comigo e com outras mulheres. Até hoje, é o pai quem lhe pede abraços e beijos. Isso sempre me deixou confusa.

Ju tinha uns 7 anos. Estávamos nos preparando para uma festa junina no prédio de uma amiguinha. Ele pegou o meu lápis de olhos e fez em sí mesmo um bigodinho. Eu achei lindo!

Me abaixei para olhar melhor quando ele me perguntou: - Mãe, o que um homem tem que fazer para ser aceito por uma mulher?

Foram exatamente essas as palavras. Nunca esqueci. Eu olhei para ele, acariciei o seu rosto e disse: - Ser carinhoso, gentil, dar flores, bombons, elogiar os cabelos dela. Um rapazinho tão lindo e especial pode conquistar quem quiser.

Nessa fase, a paixão se chamava Beatriz. Ele estava ansioso porque a festa era no prédio dela. Isso também me deixava extremamente confusa mas, na impossibilidade de entender, eu simplesmente vivia casa fase com ele, deixando a vida nos levar.

Nos arrumamos e saímos, só nós dois. Estacionei o carro e fomos atravessar uma praça para alcançar a entrada do prédio. Na praça estava um casal de rua com duas crianças de uns 3 e 4 anos e um bebezinho. 

A mulher amamentava o bebezinho e o homem estava no chão delirando, provavelmente  bêbado ou drogado. Ju olhou e me perguntou o que aquele homem estava fazendo ali. Respondi que pareciam ser uma família, pessoas que não tinham casa e moravam na praça. E lembrei a ele que já havíamos conversado sobre crianças de rua.

- Mãe, aquele homem é UM PAI?

A ênfase que ele deu me fez entender o que lhe chamou a atenção. Estava acostumado a ver crianças de rua, moças com bebês no colo pedindo dinheiro, mas nunca um homem adulto e principalmente naquele estado. Ele estava perplexo e me dei conta do tamanho que o pai tinha para ele.

Chegamos no prédio de Bia e eles se divertiram muito. Meu Ju parecia mesmo um rapaz apaixonado. Na pescaria, se esforçou para pescar uma bonequinha de plástico. Eu achei que era porque ele gostava muito de bonecas mas ao ganhar ofereceu o brinquedo para a Bia.

Essa paixão deve ter sido especial. A menina saiu da escola antes do final do ano, pois a família se mudou para Cabo Frio. Quando isso aconteceu, ele me fez montes de perguntas, queria saber se era longe, se poderíamos ir até lá, queria telefonar, falar com ela. Ficou profundamente triste com o afastamento. 

Ao mesmo tempo, Maria, pessoa que trabalha na minha casa desde os 3 anos de Ju, a sua segunda mãezinha, o pegou com um amiguinho que morava na mesma rua, beijando na boca....

Esse será o assunto da próxima quarta-feira. Até lá.

Cassia IG.
(contato: papodemaeig@gmail.com)
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Um comentário:

  1. Realmente essa fase relatada é confusa pra familia e pro próprio gay , porque eles vivem esses afetos de forma misturada. Como se fosse uma bissexualidade.
    O que e carinho e vontade de amor nessa idade?
    Adorando!

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