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Sempre quis e tive um menino. O nome foi escolhido quando eu tinha oito anos e meu avô faleceu. Na  minha barriga, já o chamava pelo nome, o nome de meu avô.

Pintei o meu mundo de azul e tudo foi perfeito. Minhas primeiras expectativas tinham sido mais que superadas e durante dois anos fui a mais feliz, realizada e segura das mães.

Quando percebi a nova realidade que se apresentava, passei meses observando-o, e me trabalhando. Enquanto o pai achava que crianças pequenas são assim mesmo, que não têm noção, que eu estava vendo demais, eu sentia que não. Ele era diferente e eu sabia exatamente por onde a questão passava.

Minha transição emocional não abalou minha realização como mãe, mas houve uma mudança na minha segurança. Duvidei da minha competência para educar um menininho tão pequeno e, como já relatei antes, fui buscar ajuda.

Na verdade, apesar de ter me sentido assim, nunca tive grandes dificuldades. Levava meu filho à terapia toda semana e, uma vez ou outra, quando acontecia algo e eu sabia que era importante dizer as palavras certas, ligava para a psicóloga e seguia as suas orientações.

Naquele dia, diante daquela fantasia, do brilho nos olhos do meu filho e de seu pedido, amarelei.

Estávamos em um shopping, do lado de fora da loja, em frente à vitrine. Quando consegui pensar, me abaixei. Fiz um carinho em seu rosto e perguntei se ele já tinha visto algum menininho usando uma fantasia tão cor-de-rosa, cheia de brilhos e com asas tão grandes. Perguntei da forma mais doce que consegui. Ele me respondeu com uma pergunta.

- É de menina, né mãe?
- Pois é, filho.... Você não acha melhor comprar uma de menino, que você também goste?

Ele olhava encantado para a fantasia e cheguei a pensar em lhe oferecer a opção de comprar para usar em casa. Mas não falei nada. Apontei para a fantasia do Batman e perguntei se ele não gostava daquela. Ele me olhava sem responder.

É claro que não queria a do Batman. Ele queria a fantasia da borboleta.

Me levantei e pegando a sua mãozinha fui andando até a porta da loja e propus entrarmos para ver o que tinha lá dentro. Como uma boa mãe ridícula, peguei a do rei leão e simulei um urro. Uma de índio e, batendo na boca várias vezes, imitei um índio. Coloquei a capa do Conde Drácula e fui na direção dele dizendo que ia beber o seu sangue. Dei uma cheirada no seu pescoço e ele riu muito.

- Filho, olha aquela (apontei para a do Superman). Tem essa capa aqui atrás, para o Superman voar.

Foi a que ele escolheu e quis ir vestido com ela. Adorou a capa! Saímos da loja e ele nem olhou para a borboleta. Estava encantado consigo mesmo. E fomos tomar sorvete com todo mundo olhando para o mais belo de todos os super-heróis.

A tarde acabou feliz. À noite, contei para o pai que ouviu tudo em silêncio. Sei que ele dormiu com o coração apertado. O meu estava também.

O carnaval passou, mas ele continuou brincando de se fantasiar.

Um dia, quando o pai o chamou para irem ao mercado, foi de "Superman". Curtiu muito. Ele meio que se parecia com o Dean Cain, só que com olhos verdes. Eu o chamava de Clark Kentinho, mas nunca esqueci que dentro do meu Super-homem existia uma borboleta.

Até hoje me pergunto se fiz bem ou mal em não dar a fantasia. Poucas vezes ele quis tanto alguma coisa. Isso me marcou. Mesmo agora, tantos anos depois, essa lembrança me emociona e eu choro. Por alguma razão, ainda dói.

Até a próxima quarta.
Cassia IG
(contato: papodemaeig@gmail.com)

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