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"Dois, três aninhos e só gostava de brincar de boneca, assistia à Pequena Sereia e criava figurinos femininos para si mesmo."
Já na creche, reparei que ele gostava de brincar com as bonecas de pano das meninas. Com os meses passando e essa característica se acentuando, aliada ao total desinteresse por tudo o que dizia respeito ao mundo masculino, me senti insegura. 

Como criar um menino diferente dentro desta sociedade machista? Como explicar para uma criança de  2, 3, 4 anos o que rola no mundo? 

Decidi procurar ajuda profissional e encontrei uma psicóloga que nos acompanhou por dez anos. Ela me ajudou a lidar com as “saias justas” da primeira infância quando ainda não dá para conversar. É preciso respeitar e ao mesmo tempo impor limites. Lição difícil, viu?

Ele cresceu e queria uma Barbie. Desde os 4 anos, era só o que ele queria: ter uma Barbie, o castelo da Barbie e todos os apetrechos desse mundo cor-de-rosa. 

A psicóloga nos aconselhou a não dar a boneca, mas deixá-lo brincar com as bonecas das amiguinhas. Isso motivou muito bulling que, por incrível que pareça, nunca  o afetou. Dávamos a ele todo o apoio na frente dos amiguinhos, das tias da escola, de todos. Se o chamavam de “florzinha”, “frutinha”, mantínhamos o bom humor e conversávamos com as crianças, perguntando o que eles viam de diferente nele.

- Ele brinca de boneca, tia.
- É verdade, eu também brincava. [Dizia o pai]

As pessoas ficavam desconcertadas conosco, inclusive as crianças. A primeira infância passou assim. 

Amigas com filhos meninos na mesma idade se afastaram, e amigas meninas se tornaram cada vez mais próximas. Mas nós entendíamos. Sempre ajudados pela psicóloga e sempre juntos. Eu e o pai contornamos todos os problemas que surgiram.

Aí, lá pelos 5, 6 anos, chegou o carnaval e saímos para comprar uma fantasia. A ideia era comprar a do Batman ou do Superman, que ele até curtia. 

E então ele viu uma fantasia de borboleta cor-de-rosa, com asa e tudo. Seus olhos brilharam. Foi a primeira vez que ele viu uma vestimenta tão feminina em uma vitrine e se sentiu atraído. Na verdade, eu nunca o tinha visto tão encantado com alguma coisa. Eu olhava para ele e não conseguia pensar. Via, sentia o seu desejo e não sabia o que dizer ou fazer.

Tive certeza de que as mães não sabem tudo.

Até quarta-feira que vem.

Cássia IG
(contato: papodemaeig@gmail.com)


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Dica de filme: Minha Vida Em Cor-de-Rosa ("Ma Vie En Rose"). Tem  a ver com a história contada por Cassia. 

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