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Era um sábado de verão e havíamos combinado um churrasco com amigos íntimos.

Eu e Lu trabalhamos juntas desde os nossos vinte e poucos anos. Ela chegou com o marido, os dois filhos pré-adolescentes, seu pai e sogra.

A sogra ficou sentadinha na sombra conversando com a gente. O pai de Lu deitou no sofá da sala e ficou vendo TV. Os maridos foram para a churrasqueira e nós para a piscina: eu, Ju, Lu e os filhos dela.

Meu filho saiu da piscina e entrou em casa. Imaginei que fosse assistir aos seus desenhos ou pegar um brinquedo.

Na piscina, conversávamos animadamente quando, de repente, aparece o meu Ju, de sapato alto, uma camisetinha comprida ajustada à cintura por algo que ele transformou em cinto, e todo enfeitado com pulseiras e acessórios meus. Todos pararam para olhar para ele.


- Vem cá, filho - ele veio. Eu estava sentada na borda e estendi a mão.

- Vem cá, deixa eu olhar você - ele abriu um sorriso e me deu a mão.

- Dá uma volta, deixa eu ver essa sua criação - peguei no 'cinto'.

- Acho que conheço esse cinto - falei em tom de brincadeira, percebi que era a alça de metal de uma das minhas bolsas.

- Eu peguei emprestado, mãe.

- Tá, eu estou achando bem legal o visual. Só estou um pouco preocupada com os meus sapatos - ele riu.

- Filho, vamos deixar para brincar de teatro outro dia?

Ninguém falava nada. Todos olhavam. Nesse momento, o pai intercedeu.

- Vem cá filhão, você vai acabar levando um tombo com esse salto - o pegou no colo e entrou com ele.

Eu ri dando tchauzinho e exclamei: - Esse meu filho é um artista!

Mergulhei e continuei a conversar com a minha amiga. Ela olhava para mim pensativa, como quem não estava entendendo.

Quem não entendeu fui eu. Eles conviviam comigo e, embora fosse a primeira vez que eles viramo Ju todo travestido, eu já havia comentado sobre isso. Mas não toquei no assunto.

Ele retornou junto com o pai de sunguinha e os dois mergulharam. O pai é um bagunceiro e fez um alvoroço na piscina. Dizia que era um tubarão e que ia atacar. Ju nadava fugindo dele e se divertia muito. Todos ríamos.

Naquele momento todos já estavam bem descontraídos. A tarde seguiu animada, regada a música, churrasco e bebidas de nossas preferências. As crianças tomaram sorvete, comeram pudim, assistiram a um filme, comeram pipoca. À noite ainda voltamos para a piscina e continuamos a festa. Delícia de noite!

Isso aconteceu há uns dez anos.

Outro dia aqui em casa achei Lu meio mal. Aparência cansada. Ju veio dar um beijo nela e pedi a ele para dar um trato na pele do rosto de minha amiga, para revigorar. Ele foi pegar os produtos e ela disse: - Você também incentiva, hein?

E me relembrou desse dia, confessando que ficou chocada comigo. Que quando os filhos dela pegavam seus sapatos, ela os repreendia e os enquadrava dizendo que homem não usa sapato de salto alto, que aquilo era coisa de mulher. Seu tom era de reprovação.

Eu ri. Disse-lhe que jamais agiria daquela forma.

- Você estimula Cássia, acusou ela.
- Isso não é estimular Lu. É assumir.

Ju veio, lhe fez uma esfoliação, hidratação, massagem e tudo o mais correu normal.

Ela me culpa por ele ser gay. É aquele tipo de pessoa convencional, que jamais vai entender como eu posso ser tão realizada com um filho homossexual e ainda incentivar. Eu incentivo mesmo. O incentivo é para sermos quem somos.

Até a próxima quarta.
Cassia IG.
(contato: papodemaeig@gmail.com)

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Um comentário:

  1. pensei que havia comentado nesse post, mas nunca é tarde. Adorei o fim: incentivo a ser o que se é.
    Grande beijo!

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