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Quando meu filho começou a amizade com Rafa, eu me preocupei. Morávamos na mesma rua e as crianças foram estudar no mesmo colégio. Sempre evitei aquela família.

Um dia, nas férias, o próprio Rafa me interpelou na calçada e me pediu para tomar banho de piscina com Ju. Ele era uma espécie de terror da vizinhança, garoto problemático.

Minha preocupação maior era com a mãe dele: uma mulher muito grosseira, agressiva com o filho, marido e vizinhos. Dela, eu nunca gostei, mas gostava do menino. Sabia o quanto devia ser difícil para ele ter aquela mãe que o agredia e o ofendia na rua, na frente de todo mundo. E quanto mais ela batia, mais ele aprontava. Rafa era um machão sem qualquer sinal de homossexualidade.

As crianças estavam de férias. Rafa, como o meu Ju, não tinha irmãos e eu sentia uma profunda compaixão pelo menino. Decidi recebê-lo em casa.

Para evitar problemas, já que ambos tinham 7 anos, muita energia e nenhum juízo, nunca deixei meu Ju ir à casa do amigo. Então, Rafa é que vinha brincar em nossa casa.

Maria, minha executiva do lar, cuidava dos dois enquanto eu e o pai estávamos trabalhando.

Aqui em casa, Rafa era quieto, brincava, nadava e os dois começaram a se isolar. Maria ficava de olho. A minha preocupação era o temperamento agressivo do menino que, por algum milagre, sempre se comportou muito bem na nossa casa. Mas Maria suspeitava de algumas atitudes deles. Eles sumiam sempre.

Quando me contou, eu orientei ela a tomar conta e se visse algo diferente que tentasse encarar a situação normalmente. Ela ficava cada vez mais na cola dos meninos.

Numa tarde, ela os flagrou em um beijo na boca. Fez de conta que não viu nada, nem mesmo o susto que os dois levaram.

Quando eu cheguei, à noite, ela veio me contar. Liguei para a nossa psicóloga para me orientar, mas não consegui falar com ela. Naquela noite, eu mal dormi. Como se resolve algo assim?

No dia seguinte, conversei com Maria. Disse que recebesse o Rafa e agisse normalmente.

- Mas Dona Cassia, eles vão fazer aquelas coisas...

- ...Seja natural Maria. Já devem ter feito muitas vezes. Só fique tomando conta como você sempre faz. Não podemos facilitar, mas não vamos falar nada por enquanto.

Eu estava desconfortável e foi um alívio quando a psicóloga retornou minha ligação. Contei do beijo, o que havia decidido para aquele dia, mas que precisava de um norte.

Ela aprovou a minha decisão, mas disse que, embora esses jogos fossem normais na primeira infância, não podíamos deixá-los à vontade, que isso seria precipitar uma fase, pulando diversas outras. Que o ideal era separá-los um pouco. Cortar o vínculo criado com a colônia de férias que se tornou a minha casa.

Colônia de férias! Decidi colocar o Ju em uma, como fazia quando ele era menor e não tinha como trazer amiguinhos de 3 a 5 anos para Maria tomar conta. Eu sabia que não ia ser fácil porque ele queria Rafa. Dei sorte.

Na sexta, Rafa acordou com febre e não foi brincar com Ju. Eu soube numa das vezes que liguei do trabalho. Quando cheguei em casa fui logo conversar com Ju.

- Filho, soube que Rafinha está doente.

- Ele está com febre, mãe. Amanhã ele fica bom?

- Não filho, isso é virose e dura mais de uma semana. Mas para você não ficar sozinho que tal ir para a colônia de férias? Você pode ficar lá até o amiguinho ficar bom - ele não gostou muito.

- Mãe, quando ele puder vir brincar comigo você me tira, tá?

Concordei. Me senti aliviada por ter uma semana para pensar.

No sábado mesmo ele foi para a colônia de férias e se divertiu muito. No domingo, eu e o pai saímos com ele por todo o dia para não dar oportunidade a ele de encontrar com Rafa.

Na segunda, antes de ir para o trabalho, passei na casa de Rafa. Nem entrei. A mãe veio na porta e perguntei pelo menino, deixei uma trança doce que ele adorava comer lá em casa e dei a notícia de que o Ju estava na colônia de férias.

O correto seria contar o que aconteceu para aquela mãe, mas eu sabia que ela não daria abertura e muito menos aguentaria. Ia bater muito no menino, além de perseguir meu filho. E ficou tudo dessa forma. Sem muitas explicações.

Certamente ela pensou que eu não queria o Rafinha lá em casa, pois nunca mais falou comigo. Uma vez, quando o Ju foi lá procurar o amigo, ela o tratou mal e nem deixou Rafa chegar no portão para falar com ele.

Com o final das férias e início das aulas, eu me preocupei. Mas a mãe do menino não o deixava sequer falar conosco. Confesso que isso me aliviava, mas ao mesmo tempo me deixava com o coração partido.

A psicóloga me consolava dizendo que se o caso fosse com uma menina eu teria que agir do mesmo jeito, pois não podemos permitir que crianças façam sexo.

Todo dia Ju contava algo que Rafa tinha aprontado na escola. Ele se preocupava com o amigo e ao mesmo tempo reprovava as atitudes. Não entendia. Foi assim até que Rafa bateu na professora e foi convidado a sair da escola.

Ju voltou a colar com as amiguinhas, mas outras coisas aconteceram. Na quarta que vem, eu conto. Até lá.

Cassia IG
(contato: papodemaeig@gmail.com)

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