Para ler a postagem anterior dessa coluna, clique aqui.

Fazia um tempão que eu não via a Tânia. Estudamos juntas, entramos para a mesma empresa, ela casou e a última vez que nos vimos foi quando ela teve o Breno, há vinte anos. Logo após, ela se desligou da empresa e se mudou para a Venezuela, onde vive até hoje, e nossos contatos passaram a ser esporádicos, por carta,  e-mail e, umas poucas vezes, por telefone.
Foi ela quem me procurou para dizer que estaria aqui em férias e queria muito me rever. Marcamos um almoço e tudo foi muito emocionante para mim.

Me mostrou um pequeno álbum de fotos da família - Tânia teve mais três filhos - e nesse álbum tinham algumas fotos minhas com Breno no colo. Eu parei mesmo foi para olhar a foto atual dele: o típico moreno, alto, bonito e sensual. Um monumento.


- Tania, se eu soubesse que ele ia ficar assim, raptava. Que coisa que ele ficou. Adoro garotos crescidos!

Rimos muito e o papo rolou com ela me contando sobre sua vida, filhos, viagens e eu falando da minha e,  claro, mostrei fotos atuais do meu Ju, que ela já conhecia por fotos de quando ele era pequeno.

 - Cassia, que gato!  Mas ele está muito alto para 16 anos! 

- É meu orgulho, eu disse. E comecei a falar de Ju, seus talentos, personalidade e sua orientação sexual.

Eu já havia escrito para ela sobre isso quando Ju era pequeno e não foi novidade. A novidade foi que ela começou a chorar e me contou que o Breno, aos 18 anos, assumiu pra ela que é gay. Falou da enorme dificuldade que ela enfrenta para manter o segredo do filho, pois o pai é um machista que não aceita a homossexualidade sob nenhum aspecto. É aquele tipo que diz que prefere filho morto a filho gay.  

- Quando o Breno me contou fiquei muito assustada, nunca notei nada e fiquei sem chão. Aí, pensei em você, Cássia. Reli seus e-mail e decidi que devia apoiar meu filho. Como eu quis te ligar, desabafar e me orientar, mas nossas vidas são tão diferentes. Não tive coragem.

Por mais que eu me esforçasse contra, minhas lágrimas insistiam em descer sem parar. 

- Os irmãos, como são?

- Iguais ao pai, respondeu ela.

Ela me contou que Breno se apaixonou e que ela faz malabarismos para que ele possa estar com o namorado sem que ninguém desconfie.

O namorado é da mesma faculdade, um colombiano que mora na Venezuela, e todos acham que o rapaz é o melhor amigo do Breno. Eles viajam juntos e é assim que conseguem viver o romance.

Como resultado, Tânia desenvolveu pressão alta, engordou mais de 20 quilos e agora seu coração apresentou arritmia.

Tânia é uma mulher totalmente dependente do marido. Ambos nasceram no  interior do Mato Grosso,  vida convencional. Ela é mais aberta porque saiu de lá e estudou em uma grande cidade. O marido continua um matuto.

Conversamos muito e eu compreendia extrema dificuldade da situação.

Percebi também que o melhor era deixar a coisa fluir e acontecer no seu tempo. Sugeri que ela procurasse um bom psicólogo. Os problemas com a saúde justificariam tal ação.

Tentei conscientizá-la de que ela precisa se fortificar e tornar essa questão mais leve,  pois o filho só terá condições de se assumir quanto puder sair de casa, o que ainda vai demorar para acontecer.

Ela precisava apoiar Breno sem danificar a própria saúde. Do contrário, não conseguirá emagrecer e os problemas com o coração e pressão alta podem levá-la ao infarto. Se a causa é emocional, não adiantam apenas os cuidados clínicos. 

Acabamos descontraindo e ela comentou que o Breno e Ju formariam um casal muito lindo. 

- E bota lindo nisso - falei.

Abracei minha amiga e disse que não sabia como ajudar, mas que ela podia contar comigo. Ela disse que eu a ajudei há anos, quando comecei a contar sobre Ju. Na ocasião, ela nem imaginava que tinha a mesma questão dentro de casa. Que eu fui a inspiração dela.

É meus amigos, tem horas em que é impossível segurar as lágrimas.

Na quarta que vem eu volto. Até lá.

Cássia IG.
(contato: papodemaeig@gmail.com)

Para ler a próxima postagem, clique aqui.


5 comentários:

  1. Essa sessão é ótima. Mas que exagero, por causa da homofobia as pessoas chegam a ficar à beira do caos. Patético, mas é a vida real...

    ResponderExcluir
  2. sim! a vida tal e qual ela é para muitos ainda ... infelizmente

    ResponderExcluir
  3. Rapadura é doce,mas nao é mole,nao.
    A partir do momento que desabafou,com certeza,ela tirou um grande peso.
    Beijos.

    ResponderExcluir
  4. Imagina a situação, o pai e os irmãos são homof´bicos,como ajudar o filho sem se abalar neh, afinal, sao todos parte da familia dessa mãe.

    ResponderExcluir
  5. Pois é amigos, a situação de algumas pessoas ainda é dificílima. Chega a ser quase impossível acreditar que ainda vivemos esse tipo de coisa nos dias de hoje.

    ResponderExcluir

Para se cadastrar, preencha o formulário na coluna do lado direito do blog.
Seu comentário é bem vindo, desde que:
1. possua nome e link válidos;
2. não contenha cunho racista, discriminatório ou ofensivo a pessoa, grupo de pessoas ou instituições;
3. não contenha cunho de natureza comercial ou propaganda.
Grato pela compreensão.