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Ju chegou essa semana precisando conversar. Estava indignado e completamente perplexo.

No colégio, uma das amigas dele, a Cris, morena linda, super feminina e meiga, passava por uma crise: seu namoro com outra menina foi revelado aos pais.

Pelo que entendi, as duas matavam aula para namorar já que nenhuma delas podia namorar em casa. Como são menores de idade, a diretoria chamou os pais e contou o que se passava.

A mais velha não teve problemas. Os pais já sabiam, mas embora não se incomodassem, também não permitiam que levasse a namorada para o apartamento. Com Cris foi diferente. O mundinho do papai e da mamãe caiu.

Segundo Ju, Cris está mal. A família a humilha. A mãe chegou a largar o emprego para 'cuidar' dela. Aí quem ficou perplexa fui eu.

- Como assim, Ju? Ela deixou o trabalho?

- É mãe. Para tomar conta dela.

E eu jurava que estávamos no século 21.

O problema devia ser o fato de a adolescente matar aula para namorar, mas de qualquer maneira, essa atitude mostra o despreparo dos pais para lidar com questões cotidianas de uma fase da vida em que elas são absolutamente normais.

Se pensarmos bem, por mais surpresos que os pais fiquem, ao serem informados de que sua menina linda, super feminina e doce, namora outra garota, eles não podem agir dessa forma. No máximo, um susto ou até certo constrangimento por não saber lidar, mas humilhar a filha e passar a escoltá-la me parece medieval demais.

Me sensibilizei de verdade. Se pudesse, traria Cris para nossa casa e a criaria. Se pudesse, criaria todos os adolescentes gays do mundo que não são compreendidos, respeitados e aceitos pelas famílias.

Falei isso para o meu filho e ele protestou. - De jeito nenhum, você é só minha. Não divido você com ninguém.

Beijei muito meu filho.

Tivemos dias complicados, pois minha mãe de 90 anos teve uma queda e precisou de cuidados. Meu filho me ajudou a ponto de faltar à monitoria e ao curso de inglês para ficar com a avó. Dividiu a responsabilidade e eu não precisei faltar ao trabalho e descumprir compromissos importantes, já assumidos. Que delícia ter esse filho!

Lamento pelos pais que não sabem amar seus filhos. Lamento que ainda existam pessoas com esse nível de preconceito, de desconhecimento e de desamor. Lamento que, apesar de tudo o que acontece em prol do reconhecimento do valor dos homossexuais, o meu filho seja obrigado a assistir algo assim.  Só não lamento por mim, por vocês e por todos nós que aqui tentamos fazer a diferença, mostrar que todas as formas de amor valem a pena.

Aliás, acho que Ju andou namorando, mas não deu muito certo. Quando ele me contar, eu conto para vocês.

Deixo um beijo de mãe em cada coração.

Cassia IG
(contato: papodemaeig@gmail.com)

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Um comentário:

  1. É mamãe, a realidade ainda é cruel em pleno séc 21. Tem familia que humilha mesmo, magina ser chamado na escola porque filho matou aula para namorar alguem do outro sexo, se fosse só por namorar seriam capaz de agredir a diretora.

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