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Tenho escrito muito sobre pais que discriminam seus filhos homossexuais e hoje decidi escrever sobre um pai especial, que não é o pai de Ju. Quero falar sobre meu pai.

Nasci no ano em que ele se aposentou e nos meus primeiros anos era ele quem cuidava de mim. Minha mãe, 11 anos mais nova, ainda trabalhava. Isso nos dava mais tempo para conviver, brincar e interagir.

Ele foi dono de duas editoras. Homem das letras, ligado a cultura e um verdadeiro arquivo histórico. Nunca me contou histórias de Walt Disney. Líamos Monteiro Lobato, contos dos irmãos Grimm, histórias do parnasianismo, Getúlio e outros personagens da história do Brasil.

Fui alfabetizada em casa, por ele. Uma das coisas das quais me lembro era de ele me colocar sobre os ombros e me levar para a favela.

Entrávamos e ele me mostrava como as pessoas viviam por lá. Tanto me falava como eu era privilegiada por ter casa, brinquedos e tudo mais que uma criança precisa, que me fez enxergar o quanto era injusta a vida daquelas pessoas sem oportunidades.

Acima de tudo, meu pai me ensinava que as pessoas eram iguais e que em favelas a maioria não era bandido e sim trabalhador. Mas que era preciso estudar, aproveitar as oportunidades para nunca passar por situações como aquela, de injustiça social.

Nem sei se eu entendia naquela época tudo que ele me dizia, mas sei que cresci preocupada em estudar e me tornar independente. 

Apesar de ser filha de um homem que nasceu em 1909, não fui criada para casar, ter filhos e ser dona de casa. Isso era algo que poderia acontecer ou não. Mas foi uma enorme felicidade quando meu filho nasceu. Percebi que o sonho de meu pai, de ter um filho homem se concretizou através do neto. 

Me preocupei quando comecei a notar que o meu menino era diferente.

Quando Ju tinha quase cinco anos, meu pai já estava na casa dos 90 e morava comigo. E assim eu podia cuidar de todos nós. Ele vivenciou as brincadeiras lúdicas de Ju, brincava com ele travestido e nunca fez uma única crítica.

Para nossa Maria, que cuidava dele, ele falava de sua preocupação comigo, pois tinha dúvidas se eu estava preparada para um filho homossexual. Mas comigo nunca falou sobre o assunto e jamais perdia uma oportunidade de elogiar e valorizar o neto.

Acho que nunca vou saber o que se passava na cabeça e no coração dele, mas sei que nos seus 95 anos de vida lúcida, ele nunca proferiu uma única palavra de discriminação e nunca demonstrou qualquer sentimento que não fosse bom em relação a Ju.

Faleceu em 2003 e as lembranças são de alguém muito especial, que soube envelhecer com sabedoria. Ele só deixou boas recordações e tenho certeza que jamais aceitaria a homofobia.

Beijo no coração de cada um e até quarta.
Cassia IG.
(papodemaeig@gmail.com)

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6 comentários:

  1. Acho que a boa indole esta no gen de fato, e ela se transmite, de forma direta ou indireta.Esse foi um caso.
    Pela idade o esperado era que ele nao compreendesse, mas o contrario.
    É porque ele sabia o que realmente vale em um ser humano.Bjs!

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  2. A vida sempre é assim ... temos o Alfa mas tb temos o Ômega ... ainda bem né?

    Muito bacana este seu depoimento e este seu resgate emocional ...

    bjão Cássia

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  3. que pena q vc nunca teve essa conversa com seu pai, teria sido mto bom não é?

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  4. Olá menino
    Parabéns pelo privilégio.
    Bjão

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  5. meu pai foi oposto do seu: um homem simples, sem estudos, que sempre trabalhou duro em subempregos e conseguiu criar os 4 filhos. Do seu jeitão, nunca se intrometeu na vida dos filhos e cada um seguiu seu caminho. Sábio como era, foi apenas pai, e deixou que tivéssemos outras figuras que ocupassem a vaga de melhor amigo. Hoje vejo que ele foi um pai melhor do que eu poderia esperar.

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  6. Queridos, obrigada por estarem aqui. Ainda tenho muito a contar sobre o meu pai. Realmente, um homem à frente do seu tempo. Mas TABU meus queridos, é um entrave na vida. Por isso ele nunca conversou comigo, por isso eu nunca conversei com ele e por por isso a nossa Maria nunca me contou nada até ele falecer. Vocês não imaginam como eu lamento isso.
    Beijos para todos.

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