Mesmo sendo a morte da cantora Amy Winehouse uma tragédia anunciada, eu me surpreendi. Nunca acreditei na sua recuperação, até aqui, mas não imaginei que o fundo do poço a engolisse tão cedo.

Todos a relacionaram ao clube dos 27, idade em que a tríade Jim Morrison, Janis Joplin e Jimi Hendrix faleceu pelo excesso de consumo de drogas. Mas eu não vejo como comparar Amy à essa tríade. Aqueles abraçaram as drogas dentro de um movimento social que propunha mudanças radicais na política, na economia e no social; que pregava o anticapitalismo, a paz, o amor, o abandono do individualismo e a adoção de uma vida comunitária e de uma filosofia transcendente ao material, mais intuitiva, mais sensível e voltada aos valores  espirituais. 

Naquele momento, as drogas representavam uma ferramenta de libertação e faziam parte do mergulho dentro desse novo mundo. Acreditava-se que elas abriam a mente e expandiam a consciência. O seu uso tinha essa finalidade.

As consequências vieram com o tempo, assim como as informações acerca das consequencias desse uso. A morte da tríade Jim, Janis e Jimi representou a inviabilidade da igualdade que a contracultura da geração da era de aquarius pregou. A tragédia pessoal desses ídolos comprovou que o conceito de liberdade pela expansão da mente baseada no uso das drogas foi um erro. A libertação se transformou em prisão e sentença de morte .
"O sonho acabou”, disse Jonh Lennon

E parece que nada foi aprendido. Mesmo com os nossos "heróis morrendo de overdose", as drogas viraram uma instituição, com leis e procedimentos próprios. Entraram na lista dos bens que a sociedade de consumo cultua  e, pior, respeita. Um traficante tem tanto status quanto um chefe de Estado. A droga se faz cada vez mais presente nas nossas vidas, mesmo quando somos obrigados a assistir "on line" a decadência de um artista que dela faz uso.

E como nada foi aprendido, tantos talentos se perderam. 

Cazuza foi um deles, Amy também.

Em comum, além do talento, têm esses dois o fato de não terem qualquer comprometimento com movimentos sociais - ao contrário da tríade sensacional -  e o total mergulho no vazio; na busca da satisfação ou do alívio; na inconsequência   no descompromisso com qualquer coisa que não seja o seu "eu".

A questão das drogas precisa ser dividida em duas: o tráfico e o consumo. O consumo pode ser ou não um problema. Quando se transforma em um problema, ele é pessoal, de ordem médica, e o seu agravamento atinge o social - falo de escândalos, violência, maus exemplos. O tráfico é um problema sob todos os pontos de vista: é coletivo; de ordem legal. Não acho que o consumo deva se constituir em crime, mas o tráfico sim, e hediondo.

Amy e Cazuza usaram as drogas e se congelaram na adolescência. Mantiveram a rebeldia sem causa que tem marcado a juventude de todas as décadas. Mães e pais da sociedade continuam passando a mão nas cabeças de seus filhos. Não enxergam Cazuza ou Amy como pessoas adultas e os tratam como crianças rebeldes que cometeram deslizes infantis. É essa a mensagem que estão passando.

Eu fico me perguntando qual a leitura que a juventude de hoje faz disso e como os pais se sentem dentro dessa realidade, mesmo com todas as campanhas, informação e exemplos que encontramos para onde olhamos.

Como combater as drogas se nos deixamos influenciar por desejos impostos, criados para encher os bolsos dos poderosos, que nos mantém reféns, insatisfeitos e fragilizados?

Como combater as drogas se as pessoas absolvem os seus usuários? Fazendo isso defendem a continuidade desse sistema de educação que não prepara o indivíduo para a vida.

Também há aqueles que festejam a morte de pessoas como Amy porque acreditam que estão acima de todo o mal e que nas suas famílias jamais haverá um adicto, um deficiente, um homossexual. São os adictos da normose, viciados na normalidade vigente e despreparados para enfrentar qualquer coisa diferente do convencional que usam como escudo a condenação sem reflexão.

Todos nós fazemos parte dessa indústria ou das tragédias que as drogas causam. Estimulamos as diferenças e o preconceito porque não aprofundamos nas suas razões. Sequer sabemos o que é ou o que não é escolha.

E não vamos conseguir mudar nada enquanto os pais não forem capazes de criar seus filhos falando a verdade: viver é sentir dor e prazer, mas não há prazer sem dor. 

Temos que lutar pelo que queremos, mas para ter o que queremos temos que seguir regras, mesmo que elas não nos agradem. A alegria é real, mas a tristeza também. Viver é padecer no paraíso e o paraíso é aqui. Padecer faz parte de todo e qualquer processo que envolve o ato de viver. As coisas boas e ruins estão em nosso entorno e podem nos alcançar. As drogas, as doenças, os desvios e as diferenças não acontecem apenas na casa ao lado. Não. Tudo pode acontecer conosco, com os nossos e com as próximas gerações.

Amy foi um talento ímpar. Sua presença era ímpar, assim como a sua voz e técnica. Mas não podemos absolvê-la por ter sucumbido às drogas. Amy não merece preconceito, mas a sua decisão de trazer as drogas para a sua vida tem que ter o seu pós-conceito divulgado. É preciso falar, encarar e mudar uma verdade, quando preciso. Essa é a única forma de deixarmos de ser uma sociedade de dominados.

[Cassia escreve para a coluna "Papo de Mãe", publicada às quartas-feiras]

2 comentários:

  1. Muito boa avaliação.
    Nesse episódio da Amy, a coisa que mais tem me chocado é assistir a manifestação de quase gozo pelo final da história pessoal dela. Aqueles, como disse no texto, que "festejam a morte do outro porque acreditam que estão acima do mal" (representado pelas drogas, no caso).

    Quanto à “decisão de trazer as drogas para sua vida”, embora concorde que existe o livre arbítrio, acho que não é uma questão de decisão (não sei se entendi bem). Não é tão simples. Ou, talvez, alguns conseguem, outros não. Por que será?
    Em geral as pessoas entram sem saber onde estão pondo os pés, e quando pensam (quando pensam) em sair, já é tarde demais. Poucos conseguem.

    ResponderExcluir

Para se cadastrar, preencha o formulário na coluna do lado direito do blog.
Seu comentário é bem vindo, desde que:
1. possua nome e link válidos;
2. não contenha cunho racista, discriminatório ou ofensivo a pessoa, grupo de pessoas ou instituições;
3. não contenha cunho de natureza comercial ou propaganda.
Grato pela compreensão.