Estava com 22 anos vindo de um Brasil subdesenvolvido de 1988 deslumbrado com as novidades e diferenças culturais de Montreal, Canadá.
Fui aperfeiçoar o inglês num lugar onde se fala oficialmente duas línguas. Havia muita coisa nova para viver e a expectativa dava ansiedade.
Após alguns dias, devidamente instalado e fazendo alguns cursos, eu e uns colegas do curso de francês fomos curtir uma balada na rua Saint Catherine, a principal artéria comercial do centro de Montreal. Imensa! 
Éramos oito: seis caras e duas mulheres. Todos estrangeiros. Na verdade, somente eu e uma garota punk (alemã) não éramos americanos naquele grupo.
Ninguém conhecia a cidade, muito menos tinha referências de lugares específicos. O objetivo era entrar no primeiro lugar movimentado que aparecesse pra beber, dançar e curtir. Enfim, ser feliz.
No primeiro que notamos um agito na porta, estranhamos porque a maioria esmagadora era mulher. Isso animou alguns caras, mas não as meninas. Nem a mim, claro.
- É o paraíso [disse um deles].
Fomos pro final da fila e o empolgadinho foi azarar duas garotas na nossa frente. Levou um fora. Elas respondiam tudo em francês e só falaram em inglês pra dizer que homens não eram bem vindos porque a boate era das lésbicas.
Saímos e, poucos metros adiante, encontramos o lugar que a gente idealizou: homens e mulheres bonitos por todo lado. E melhor, animados.
Definitivamente era a minha noite. Assim que entramos vimos dois caras se beijando e ficamos sabendo que a boate era GLS. Ninguém pareceu se importar. Nos disseram que era também frequentado por homens e mulheres héteros, além do que o som era legal,  espaçoso, com astral e bonito. Havia mulheres e caras desacompanhados ou com galera, mas o principal era que todos pareciam amigos. 
Uma música bacana tocava e até as pessoas sentadas no bar se sacudiam e se olhavam com sorrisos. 
Procuramos uma mesa, sentamos. Conversávamos e ríamos de tudo.
Me levantei para ir ao banheiro. Na volta, um cara dançando sozinho me fez parar na margem de uma das duas pistas de dança [a mais afastada da mesa onde estava o grupo]. 
Hipnotizei com a cena. Com gestos discretos e másculos, um copo numa das mãos e outro braço erguido, o cara balançava a cabeça no ritmo do som. Parecia único ou era uma pessoa autossuficiente.
De repente, começou tocar Beds Are Burning, da banda australiana "Midnight Oil". O povo enlouqueceu. Muitos partiram pra pista de dança e pareceu que o DJ aumentou mais o volume.
Que som! Que lugar! Que pessoas! Aquele cara, que agora estava a apenas um metro de distância, cantava a música inteira do "Midnight Oil" com um sorriso e um olhar discretos em minha direção. Meu Deus, obrigado! Como estou feliz. Pensei arrepiado. 
Quando chegou o refrão, ele, que naquele minuto estava de costas, deu um giro, apontou o dedo indicador com o braço esticado na minha direção e berrou:
How can we dance when our earth is turning?How can we sleep while our beds are burning?[2]. The time has come to say fairs fair, to pay the rent, now to pay our share...


8 comentários:

  1. Musicas que realmente te fazem lembrar de alguéem ou de algum momento.
    A vida ée movida de musica, realmente a pessoa certa - a musica certe - no lugar certo te faz "pirar", Girar atée cair.

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  2. Xiii... tanta aventura!
    A juventude é mesmo a idade da descoberta. Um mergulho no mundo. E quem assim não o fizer... bem, perdeu um bom pedaço de história.

    Beijos

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  3. Adoráveis estas recordações ... adorável esta canção ...

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  4. ah, vc pegou o Todd?!?
    conta isso direito, menino!
    hehehe

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  5. Incrível como música pode nos lembrarmos de pessoa e/ou lugar!
    Beijos,Ju.

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  6. Realmente algumas musicas marcam momentos que agente acaba esquecendo , mas quando do nada houve, os momentos voltam .. como se fossem agora :)

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  7. Ai Ju que lindo!

    Amei essa aventura! me empolgou pra escrever a minha no Abapha.

    beijos

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  8. Realmente até na vida real, existe uma trilha sonora para os bons e maus momentos. Bjs!

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