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Estive hoje na Confeitaria Colombo, no centro do Rio. Pensei em meu pai, nessa coluna, no que comecei a contar, nos comentários de vocês e decidi voltar ao assunto.

Me lembro de várias tardes passadas nesse lugar mágico com meu pai. Um lugar que fazia brilhar os meus olhos de menina, encantada com a beleza e elegância que eu não via em nenhum outro lugar.

Foi ali, com 11 anos de idade, lanchando com meu pai, que parei os meus olhos em um casal que se beijava na boca. Meu pai notou e comentou sobre aquela cena. Ele disse que eu ia crescer, namorar, beijar e comentou que era muito gostoso.

Foi a primeira vez que conversamos sobre amor e sobre gostar de alguém. Naquela tarde ele revelou que teve um filho na juventude, fruto de uma relação não séria. Contou que seu filho faleceu com um ano de idade e me explicou o que era uma relação não séria. Falou superficialmente de suas aventuras na juventude.

Aquela tarde marcou porque, a partir dela, passamos a conversar sobre sexo. Na verdade, conversávamos sobre tudo e nunca me havia me dado conta de que um assunto nunca fez parte dos nossos papos: homossexualidade.

Lembro que uma vez estranhei e comentei sobre uma menina na praça porque se parecia muito com um menino. Ele respondeu que algumas meninas nasciam assim e que eu ainda veria alguns meninos que parecem meninas. Não emitiu opinião, não prolongou a conversa e nunca mais falamos sobre isso.

Hoje, pensando em como ele era, em como gostava de ler e de saber sobre tudo, tenho certeza de que o seu pensamento era liberal sobre a homossexualidade. Creio que ele achava normal; que a pessoa nasce assim. Mas, por alguma razão, nunca conversou comigo sobre isso. A razão é óbvia: tabu.

Acho que, pela mesma razão, nunca conversei com ele e ainda me preocupei em poupá-lo em relação ao neto.

Ele conversava com Maria, porém ela nunca teve coragem de me contar. Tabu é assim, um constituinte do consciente coletivo e está presente dentro de cada um de nós. Não falar sobre algo diz tanto quanto conversar horas sobre o assunto. Tabu é o determinante, o que é sagrado,oque é profano numa sociedade.

Quantas coisas conversamos com amigos mas não conversamos com nossos pais? Quando comecei a conversar sobre sexo com Ju, ele dizia que não se sentia bem falando sobre isso. Eu não era específica, mas sempre insisti porque o pai não fala sobre o assunto. Ele simplesmente aceita, ama e o protege.

Hoje sei que ele ainda não se sente completamente à vontade, mas noto que se aproxima cada vez mais e comenta sobre sexo. E como ele tem sido específico, conseguimos conversar abertamente sobre alguns assuntos do mundo gay e percebo a sua necessidade de se abrir.

Simplesmente deixo acontecer e fico feliz. Conto para ele sobre o avô; sobre o fato de ele ter falecido preocupado conosco: comigo e com ele. Sei que ele gostaria de nos ajudar e que se tranquilizaria se me ouvisse dizer que estava tudo bem.

Eu gostaria muito de ter tido essa conversa com meu pai e não vou perder a oportunidade de conversar com o meu filho sobre qualquer assunto que nos diga respeito. Essa lição eu aprendi.

Na próxima quarta eu volto queridos. Beijos.
Cássia IG
(contato: papodemaeig@gmail.com)

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5 comentários:

  1. Meus amigos (tanto héteros como gays) e eu nao falamos abertamente sobre sexo com os pais.Os pais,em geral,dao conselhos para o uso da camisinha.
    Agora,com minhas irmas,falamos abertamente.Sai cada coisa.kkkk.
    Uma vez,a loka da minha mae resolveu falar conosco.Foi comédia.Ela ficou horrorizado quando falamos de sexo oral.kkkkkk.Parei por aqui.

    Cássia,adorando essa fase da sua coluna.Estava muito monótona e batendo na mesma tecla.Desculpe a sinceridade.
    Beijos.

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  2. Vc é ótima Cássia ...

    Eu nunca tive conversa sobre sexo com meus pais e irmãos a não ser aos 30 anos qdo me assumi para todos eles. Até então senti falta destes papos mas consegui me construir sozinho ...

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  3. Vc é ótima Cássia ...

    Eu nunca tive conversa sobre sexo com meus pais e irmãos a não ser aos 30 anos qdo me assumi para todos eles. Até então senti falta destes papos mas consegui me construir sozinho ...

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  4. Hoje eu digo a minha irma que ela deve tentar ser para os filhos uma mãe amiga, daquelas que tenta falar sobre tudo e acima de tudo, passar um a segurança para que eles possam compartilhar coisas boas e ruins.
    Mas também não tive e não tenho esse tipo de conversa com minha mãe, realmente envolve a questão de tabu.

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  5. Lobinho, eu imagino, sou mesmo uma inconformada com a homofobia. Quando eu estiver muita chata, pode me avisar. Beijos querido.

    Paulo, pelo que pecebo de você, se construiu e muito bem. Beijo grande.

    Senhor a Vida, o que você falou para a sua irmã é exatamente o que eu penso. Se meu filho não quiser falar sobre algo comigo, saberá que foi escolha dele. Beijo e obrigada.

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