Até hoje não consegui compreender como se deu a saída do armário do pai do meu filho.

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Embora sempre amoroso e disposto a apoiar e defender nosso filho, Gaúcho se recusava a enxergar o que todos aqueles sinais queriam dizer. Para ele, era coisa de criança ou confusão de adolescente.

Convencido de que Ju estava confuso por ter recém saído da infância e entrado na pré adolescência, Gaúcho resolveu ajudá-lo mostrando o mundo masculino para o filho. Saía com ele e o levava para grupo de amigos aparentemente héteros, onde os programas eram de machos falando sobre garotas. Os amigos queriam ajudar.

Como resultado, o filho começou a não querer sair com o pai. Isso causou no Gaúcho uma enorme frustração e eles se afastaram. Eu me preocupava com o distanciamento e tentava ajudar. Nesse momento, quem criou dificuldade foi Ju.

Eu conversava e mostrava a ele o que se passava na cabeça do pai. E fazia o mesmo com o pai. Mas acho que ambos estavam confusos e isso foi complicado de lidar.

O tempo passou e quem sempre teve que ceder foi Gaúcho. Ele só conseguiu que o filho saísse com ele quando o fez compreender que tudo seria do jeito dele. Então, era Ju quem ditava as regras: onde iam e o que fariam. Mas não falavam sobre o assunto.

Os dois são bem iguais, A diferença é que Gaúcho é completamente apaixonado e cede em tudo para Ju.

Para mim era visível a dificuldade do pai de admitir que o filho era gay. E o sexto sentido me dizia que o filho percebia isso e, inconscientemente, rejeitava o pai por essa razão. São muito complexos esses mecanismos psicológicos.

O Gaúcho é meloso com Ju. Desde que o filho nasceu que ele se revelou assim, um pai que sente uma enorme necessidade de contato físico. Ambos somos desse jeito e amar Ju, para nós, passa necessariamente pelo físico. Criamos ele no colo, como não se deve fazer segundo os especialistas. Mas não conseguíamos resistir.

Ju entendeu isso.

Eu acho que para castigar o pai, ele passou a não deixar Gaúcho abraçá-lo e beijá-lo. E foi assim por um bom tempo. Eu também não sabia exatamente o que fazer. Era uma espécie de guerra fria, pois não havia briga ou complicações maiores. Era tudo muito sutil. O pai sempre se colocava ao dispor do filho, sempre aproveitava qualquer oportunidade para estar perto e demonstrar afeto. Mas eu acho que Ju queria mais, embora não soubesse.

Hoje, Gaúcho estava no meio do processo dele. Mesmo comigo ele nunca conseguiu conversar sobre o assunto porque não acreditava nos fatos e se enclausurou nas próprias certezas. Então eu tratava o assunto com um 'sim, ele é gay' e ele com um 'não, ele não é gay'. Mais tarde ele passou para o 'talvez, mas eu tenho esperança'.

A verdade é que Gaúcho sempre teve grandes amigos gays. Por ser um homem lindo, sempre atraiu os gays. Mas aceitar essa realidade em um filho implica entender que ele não havia falhado como pai, que essa era a natureza dele e que nosso Ju podia ser feliz e ter vida normal.

Os tempos são outros. Mesmo com todos os problemas sociais que os gays enfrentam, temos estrutura e alguma experiência. Talvez, para ele, o grande dificultador tenha sido o velho e conhecido machismo.

Mas não faz o gênero de Gaúcho desrespeitar ou excluir o filho, pelo contrário. Se tem uma característica forte nele é a aceitação. Eu decidi deixar que o tempo mostrasse as soluções, mas sempre estive convicta de que era necessário que ele, como pai, saísse do armário.

E inexplicavelmente aconteceu. Prometo contar na próxima quarta.

Beijos.
CassiaIG (papodemaeig@gmail.com)

Leia a próxima: "O Que Passa na Cabeça dos Pais de Adolescentes Gays".

7 comentários:

  1. gente, só quarta? mas isso só pra me deixar mais curioso não é? maldade comigo!

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  2. super legal isto ... mesmo q sofrido é legal ... pessoas assim são admiráveis ... poderiam ter facilitado as coisas não é mesmo? mas enfim ... tudo tem o seu tempo na vida ...

    beijão Cássia

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  3. Só o fato do pai não ter desrespeitado o filho, membora se sentisse confuso, ja merece nota.Beijos!

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  4. Adoro seus posts eles são mt interesantes... beijos

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  5. Meu pai é uma comédia.Tive um namorado que vivia em casa e meu pai o tratava como filho.Vivia paparicando.Quando terminei o namoro,ele ficou muito triste.Como sempre discreto,nunca perguntou o motivo.Senti que meu pai ficou triste e eu fiquei magoado pq nem pra dar um telefonema fez ao véio.
    Depois desse incidente,evito que namorado tenha muito contato em casa.Posso dizer que meu pai é família e quer que eu constitua uma,nao importando com orientaçao sexual.

    Como sempre,seu post é divino,Cássia.Bjs.

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  6. Oi queridos!

    FOXX, mas eu prometo que conto na quarta. Está chegando....
    Beijo e obrigada por estar aqui.

    Paulo Braccini, sim meu querido, é sofrido. Como eu já escrevi,ninguém nos prepara para a realidade e ela nos surpreende. Mas estamos felizes. Beijo e super obrigada pelo carinho.

    Senhor da Vida, sim, nós respeitamos muito as pessoas, mas eu percebi que aceitação vai além. Beijão. Fico muito feliz em ler você toda semana aqui. Obrigada.

    Oi Lucas Calistro!
    Fico feliz e honrada em ler você. Me estimula muito. Muito obrigada querido.

    Lobinho, eu adoraria conhecer o seu pai. Que pessoa incrívelmente amorosa! Vocês dois têm sorte. E eu também desejo que você constitua família. Um cheiro.

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  7. Ah, se todos nós pudéssemos ter tido pai e mãe assim compreensivos, nos sentindo aceitos... muita coisa poderia ter sido diferente na vida.

    O sentimento de rejeição, o ter que esconder-se para continuar sendo aceito, causa não apenas traumas, mas travas, que emperram muita, muita coisa na vida.

    Na minha foi assim. E, infelizmente, pelo menos para a maioria dos que já passaram dos quarenta, acho que não foi muito diferente. Alguns reagiram melhor, conseguiram se impor, mas todos saíram arrannhados.

    Muito legal ler esses depoimentos aqui! Especialmente por ser pelo olhar de uma mãe, e não do próprio filho.

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