[para ler a primeira parte, clique aqui]
A segunda ocorrência foi mais introspectiva, conforme citei na primeira parte.
Em razão da experiência inusitada naquele almoço, refleti mais sobre homossexualidade o resto do dia.
O que mais me espantou foi declarar, sem a menor necessidade e de forma descontraída, a minha orientação sexual como se falasse para um flamenguista que sou vascaíno.
As poucas vezes que abri minha vida sexual para pessoas sem interesses sexuais envolvidos foi porque a ocasião pedia. Alguém insistia em pegar mulher ou eu sentia jogos irônicos, enfim, situações nas quais, hoje em dia, prefiro revelar logo.
Aquele dia e naquele momento, não. A minha sexualidade não era interesse de ninguém. Só houve o meu, de descobrir a reação de alguém comum, num dia de trabalho normal, vivendo o seu cotidiano. Desnecessário? Foi sim. Mas também foi inédito e irresistível à minha curiosidade. Não envolvia expectativas sexuais e, por isso, estava livre para me concentrar nos detalhes que sucederiam.
A narração da outra postagem foi totalmente fiel aos meus olhos, mas propositalmente enfatizei o comportamento do Álvaro que, na minha opinião e apesar dele, até que levou numa "boa" se o compararmos ao padrão de homem heterossexualmente comum.
Alguns de vocês não concordam. Pelo que li nos comentários, entendi que julgaram o Álvaro intolerante ou que, pelo menos, ele poderia demonstrar mais educação (me corrijam se interpretei mal).
Aquela reação, a meu ver, foi porque invadi a sua rotina semanal onde não há pessoas que, em alto e bom som, se declaram gays após um gole de refrigerante à mesa de um restaurante comum, às 14 h de uma segunda-feira.
Aposto que se a Carlota e eu o encontrássemos numa boate às 2 da madruga, e durante a nossa conversa eu me declarasse gay, ele até desenvolveria o papo.
O gay não está ainda na cultura "mainstream". O fato de o Álvaro olhar para trás e conferir todas as bundas femininas que por nós cruzavam, após sairmos do restaurante, não me deixou à vontade pra fazer o mesmo a cada gostoso que passasse,  mesmo - ou principalmente - depois de ter revelado pra ele que eu gostava de "pi-rok".
Agora irei mais longe e sairei um tanto da experiência particular.
Mesmo numa cidade cosmopolita como o Rio, num bairro balneário como Copacabana, a massa, o povo, quando sai pra trabalhar numa segunda-feira pela manhã, ao parar na padaria da esquina para tomar uma vitamina ou um café, não está condicionado/preparado para cena e conversa entre namorados ou amigos gays. Se for um homem ou uma mulher heterossexual de bom senso, ou ambos, poderão levar na boa, mas prestarão atenção ao fato mais do que se a cena e/ou conversa fossem protagonizadas por heterossexuais. Certamente exporiam o fato ao primeiro conhecido que encontrassem pela frente.
Perceba que relatei fatos e não "prejulgay". Nem sou condescendente com a forma pela qual a sociedade ainda encara a homossexualidade. Muito precisa ser mudado, mas a nossa educação não permite.
O Álvaro, a Carlota, você e eu não fomos preparados na escola nem academicamente para respeitar as diferenças. Sequer o Joãozinho, de 10 anos de idade, aprende isso na escola em pleno 2011 (os parlamentares não deixam).
Joãozinho, ao se tornar um homem heterossexual, poderá levar mais na boa do que o Álvaro porque a vida evolui mesmo quando há pessoas que tentam impedi-la, mas também poderá ser pior se se tornar um homofóbico. Ao olhar para uma gostosa, declarar que adora 'busketa' e ouvir o Pedro, ao seu lado, dizer que prefere 'piroska', qual será a reação dele em 2022? Ainda contaremos com a sorte ou com a escola da vida?
O gay está muito desprotegido nesse País e muito vulnerável a diferentes reações populares.
O Estado (mesmo laico) e a maioria dos pais em casa são religiosos e com pouca educação; prestam mais atenção ao sermão do pastor evangélico do que ao bom senso.
Somos um País machista, preconceituoso e sexualidade na escola é o mesmo que ensinar crianças a fazerem sexo, pensam eles (os parlamentares).
E isso é o que penso.

5 comentários:

  1. duvido q o Álvaro tivesse uma reação diversa, o Álvaro é tão preconceituoso quanto qualquer outra pessoa, ele só sabe o quão errado ele é em ser preconceituoso...

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  2. "Somos um País machista, preconceituoso". E isso é o que [eu também] penso.

    De qq forma, pessoalmente não gosto dessas declarações de amores a busketas ou piroskas. Esses assuntos, acho e prefiro que seja assim, se trata na intimidade. Acho de última essa coisa de ficar olhando acintosamente as bundas e piroskas de quem quer que seja no meio da rua. Sem censura, não é isso. Quem quiser que o faça. Apenas eu não gosto. E olhar não tira pedaço. Sou antiquado, acho.

    O fato é que não temos, nunca, os mesmos direitos. Civis. E são esses o que importam...

    O resto é puro reflexo da intolerância e desigualdade de tratamento.

    Se eu voltar por aqui no século XXX, te digo se mudou algo.

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  3. eu concordo com sua visão, até porque na prática, eu ja conheci muitos caras que no primeiro contato poderiam fazer eu pensar que com certeza eram homofóbicos, até que eu decidi que deveria ver até onde isso é ou não realidade ou apenas um condicionamento que ele tem , dado pela familia, pela sociedade.
    As pessoas preferem seguir o que a maioria pensa, poucos são os que realmente tentam ir além.
    E realmente com o tempo, alias, no meu bairro eu me assumi com 14 anos em pleno jogo de volei, e hoje com 32, tenho amizade com a maioria que ali estava presente. E não foi tão fácil, tive que dar alguns sermões aos meninos, mostrar que aquele afeto que eles tem comigo, deve ser estender a todos os gays e etc.
    Outra coisa aqui tocada é a questão de revelar ou não, acho que intimidade é você falar com que transa, mas falar sobre sexualidade deveria ser algo comum.Como é que as pessoas vão refletir sobre a diversidade se a gente não abordar o tema? Beijos a todos!

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  4. Duas postagens espetaculares Junior.
    Entendi seu ponto e concordo.
    Abraços.

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