Ontem, ao longo do dia, duas ocorrências me fizeram refletir sobre a posição social do homossexual assumido. Uma delas aconteceu durante e após o almoço com a amiga, Carlota. 
Fui visitá-la no final de seu expediente e ela me convidou para um almoço com seu amigo e colega de trabalho que eu mal conhecia. Aceitei.
Então, estávamos num bate-papo híbrido entre trabalho e banalidades quando ela afirmou: eu gosto mesmo é de 'pi-rok'. Apesar do eco vulgar, não é o caso quando se trata de Carlota, uma brincalhona e expansiva. 
Não foi assim do nada. Não lembro bem, mas a afirmação tinha a ver com o que conversávamos, e não era sobre homens, pois o seu amigo era o típico heterossexual bem resolvido, casado - mas algo nele transparecia aquele ar de orgulho hétero.
Automaticamente, veio à mente emendar algo, mas, por alguns segundos, pensei no cara ali na frente; se pegaria mal; se não entenderia, enfim, os estigmas que carrego devido aos tantos anos de autorrepressão gay me bloquearam de pronto. Bastaram dois segundos, no entanto, para concluir que deveria me conceder tal direito, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Mandei um singelo "eu também"..
Foi irresistível testar a (in)tolerância daquele homem heterossexualmente comum e, ato contínuo, olhei para minha minha e perguntei com cara de quem deixou escapar algo que não devia:
- Tudo bem?
- Sim, relaxa, o Álvaro é tranquilo. Não é, Álvaro?
- Sim, claro (visivelmente desconcertado e franzindo a testa).
Ato contínuo, Carlota mudou o rumo da prosa. A partir de então, o clima não foi o mesmo, por mais que o Álvaro quisesse disfarçar.
Na caminhada, após o restaurante, chovia e a água parecia desfazer o disfarce de Álvaro. 
Somente a Carlota estava com guarda-chuva e aproximei para me proteger. Ela, de novo, soltou uma frase que atiçou meu ímpeto gay:
- Vem pra cá, Álvaro, cabe mais um! Vou ficar entre dois homens. Que maravilha!
Você pode imaginar, fácil, no que pensei em falar. Sim, algo meio pejorativo, mas igualmente irresistível. Contudo, dessa vez, me contive. 
O "vem pra cá' da Carlota foi porque o cara estava, sem exagero algum, a dois metros de distância da gente. Bem diferente da maneira pela qual nós três andávamos quando fomos ao restaurante, lado a lado.
Circunspecto, ele se manteve distante durante todo o trajeto e virava a cabeça somente quando cruzava por nós alguma "gostosa'. Ele passou a fazer isso várias vezes até o ponto onde seguiu o seu destino.
Ficou claro pra mim que Álvaro, como tantos caras heterossexuais que são pegos de surpresa em situações parecidas, têm medo, vergonha ou pavor de serem igualados aos supostamente vistos ou conhecidos como gays, boiolas, viados, homossexuais ou sei lá quais palavras foram pensadas por ele enquanto andava distante da gente.
Estávamos aqui em Copacabana mesmo, perto do trabalho deles e de onde Carlota e eu moramos. Provavelmente, ele deve ter associado isso à possibilidade de algumas pessoas na rua me conhecerem, serem vizinhas ou amigas. Elas poderiam pensar que seríamos ambos gays ou, no mínimo, ele seria o meu macho. Ele é negro, alto, forte, tem uns 30 anos de idade e não, não despertou qualquer atração física de minha parte.
Exatamente aqui seria o gancho para escrever a segunda ocorrência de ontem - essa foi mais introspectiva - e o desfecho da autoanálise sobre o gay diante da massa; do público em geral. Entretanto, a postagem ficaria muuuito extensa e você nem começaria a ler. 
Considero boa a ideia de dividirmos o tema e a discussão em duas partes e saber sua opinião sobre essa, a primeira.
[próxima postagem, clique aqui]

8 comentários:

  1. Cada um no seu quadrado, pensou o Álvaro, rsrs.

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  2. Brasileiro é machista e os próprios pais criam para ser.
    Outro dia,tive que ir a loja de conveniencia.É praticamente em frente do prédio onde moro.Estava lindo e maravilhoso(por conta própria) atravessando a rua com uma camiseta rosa e bermuda.Passaram uns brasileiros e parece que estavam vendo um et.kkkkkk.Para os japas,eu era apenas mais um na rua.Acabei rindo da situaçao.
    Beijos.

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  3. Acho que esse sr. Álvaro é pura e simplesmente um homofóbico. Aparentemente civilizado, embora grosseiro. Desses que não toleram gays, muito menos a companhia deles, mas também não chegariam a sair espancando um por aí.

    Quanto a soltar um "eu gosto de p... " num almoço, sinceramente, acho meio baixaria, eu não faria, mas depende do contexto, dos participantes, da situação. Cada um na sua. Não me sentiria bem na mesa, mas também não me sentiria à vontade quando um bando de héteros proclamam "eu gosto é de bu..." É o mesmo tipo de coisa. Afirmação dispensável. Acho meio grosseiro, mas é apenas uma opinião. Não fico chateado se alguém se sente bem e fala. Eu não falo (num almoço, claro). Mas isso não muda nada. Prezo a liberda e a forma de expressão. Cada um. ada cada um na sua.

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  4. repito o comentário do Alex, pq disse tudo q eu qria: "Acho que esse sr. Álvaro é pura e simplesmente um homofóbico. Aparentemente civilizado, embora grosseiro. Desses que não toleram gays, muito menos a companhia deles, mas também não chegariam a sair espancando um por aí."

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  5. Não "gostar" de gays - ou ter algum tipo de resistência à homossexualidade - é algo muito diferente de ser homofóbico. Acho que às vezes a gente mistura essas coisas.

    Da minha parte, pelo menos, acho bem normal que exista gente que goste de mim, seja meu amigo e tudo mais, mas que não curta da mesma forma a minha minha homossexualidade. Um estranho, então, nem se fala!

    lendo tua narrativa, fiquei pensando até que ponto tudo isso não está só na sua cabeça. Achei que o cara se sentiu deslocado, só isso, afinal, era o único ali que não curtia pi-rok...

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  6. Concordo com sua amiga. O Álvaro é tranquilo. Porque, por mais que ele s sentisse deslocado e desconfortável com a situação, ficou na dele.

    Se nós que estamos na nossa pele, na maioria dos casos, tivemos problemas pra aceitar a própria sexualidade, imagina quem lida com algo que não lhe pertence?

    Dá um tempo pra ele "quebrar o gelo" e depois me responde se ele não evoluiu?

    Abraços!

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  7. As veses fica dificil realmente analisar se homens como ele sao ou não homofóbicos, ou são pessoas que não tiveram contato com gay e portanto não sabem como lidar, já que a sociedade cria tantos estigmas sobre a homossexualidade.
    No meu caso, teria que ser ignorado de vez em outras tentativas de comunicação, embora eu tenha um defeito, adoro pegar esse tipo pra evangelizar, kekekek, bjs!

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  8. "...era o típico heterossexual bem resolvido..."
    com certeza não era mesmo!

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