Dois anos se passaram desde que os pais de João entregaram o filho, então com 9, ao tio para estudar numa boa escola da cidade grande. O caminho de volta é sempre lento e assustador, bem diferente do modo pelo qual se dirige à escola mais cedo. Não é porque gosta de estudar. João se distrai com facilidade, é tímido e reservado. Os colegas o acham estranho.

Mas na escola tem Dalva. A jovem professora que o olha com doçura e parece atenta, disposta a uma conversa. Eu posso conversar com ela um dia. Quem sabe? Pensa o menino.

Naquele dia, como sempre, João observa os detalhes das ruas e vielas que indicam o caminho de casa. Arrasta lentamente as mãos pelos muros e grades enquanto descobre novidades. Cada dia nota uma particularidade.

Uma minúscula planta se revelou no muro de cimento da casa amarela. Ao lado da erva daninha, alguém desenhara um coração com dois nomes dentro indicando um casal de namorados.

O coração dispara. João se lembra da menina na escola que o chamou num canto e disse que sua amiga queria dar-lhe um beijo. Ele correu apavorado. Agora, pergunta-se o porquê de não ter lidado melhor com a situação e culpa seu tio.

Seu tio está em casa, João sabe. Adia o encontro e sente alívio na pequena possibilidade da ausência daquele homem que se diz seu tutor e responsável. Segue em frente.

O pequeno parque se aproxima. É onde passa mais tempo. Joga a mochila no chão de terra pisada, senta-se no banco e observa as brincadeiras das crianças com menos idade. Elas o divertem. João tem a sensação de poder protegê-las.

Fábio e Carlos, os irmãos de de 6 e 5 anos, são agitados. João gosta deles. Nota que Dona Cleide, a mãe, se distrai muito enquanto conversa com as amigas e não os vigia como deveria. João se envolve mais do que de costume com as traquinagens dos garotos. Correm de um lado para outro, sobem nos brinquedos e João tenta pegá-los no ar quando se jogam. Por vezes, caem no chão sujando a roupa com o barro.

Carlos! Fábio! Mas o que é isso? Grita Dona Cleide enquanto se aproxima.
Que sujeira, meu Deus!
E você aí? Pergunta ela com olhar fulo.
Não acha que está crescidinho demais pra brincar com os meus filhos? Vá procurar alguém de sua idade!
Ela não entendeu, pensou João enquanto recolhe a mochila e, enfim, toma o seu rumo.
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O texto acima é fictício, inspirado na postagem "O Estupro, O Estuprador e a Vítima", do blog Confessium. .
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Sugestão de contos:
"O Morto, a Viúva e o Amante"
"Tu é Gay"
"Truques de Maquiagem"



7 comentários:

  1. Comovido pela tua solidariedade e amizade, meu querido!

    O conto é lindo! E tem muito de verdadeiro, no relato das histórias individuais de muitos de nós. Somos muitos os que viveram (e vivem por toda a vida) dramas de abuso.

    Um grande abraço. Beijos

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  2. me identifiquei com o joão...

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  3. Além de lírico na escrita ele aborda com certeza aspectos deploráveis do ser humano e suas mazelas ...

    Uma observação ... a ilustração é perfeita para o conto, além de belíssima ...

    parabéns querido ...

    vou conferir as indicações ...

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  4. Wow, esse foi, de certo modo, um conto forte! Forte, temperado de uma triste realidade...

    Obrigado pelas sugestões!

    Abraços!

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  5. É isso. Além de um ótimo texto "jornalístico" que nos acostumamos a encontrar aqui, agora nos encontramos frente a uma escrita clara, concisa, forte... sem deixar de ser lírica e nos transportar pra ficção, sem perder o pé na realidade.

    Li o post que te inspirou. Nem consigo comentar... é um dos piores tipos de agressão, os que são cometidos contra a dignidade, ao mesmo tempo que despertam desejos. É o tal do "beco sem saída" em sua mais completa definição!

    Beijos.

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  6. Eu penso parecido com o LuCa’s (rs)... existe uma violência física, até mais fácil de nos livrarmos dela. A coisa “pega” quando a violência se embasa em um certo prazer (que existe), não deixando de ser violência e, a meu ver, se agravando terrivelmente.

    Como eu já disse, adoro esse seu modo de escrever sobre as coisas!

    Beijos, meu lindo.

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