No programa "The Late Late Show" (no Brasil, é transmitido pelo canal GNT), durante a sua entrevista, o ator Jason Alexander (o George da série "Seinfeld" - ainda passa no canal Sony, se não me engano), fez uma piada sobre o críquete. Ele disse que o esporte é para afeminados ou para os gays.
Saiu de lá satisfeito com sua entrevista, mas alguns de seus fãs reclamaram da piada em seu Twitter. 
O ator não conseguiu entender e consultou alguns de seus amigos gays indagando-os sobre o suposto motivo de a piada ter sido considerada ofensiva.
Após a análise, ele publicou uma carta na internet [uma aula aos humoristas que praticam o "vale-tudo"]. Abaixo, a tradução de uma parte.
(...)
Eu sei que o humor sempre aponta para os exageros, absurdos ou generalidades evidentes de algum grupo: baixo, gordo, careca, louro, etnia, inteligente, burro, ricos, pobres, etc É difícil fazer qualquer tipo de piada que não poderia ser vista como ofensiva para alguém.
Mas eu realmente não entendia por que uma pessoa gay se sentia particularmente ofendida por esta rotina. Entretanto, preocupado com a reação delas, perguntei a alguns dos meus amigos gays sobre o assunto. Numa primeira análise, nem mesmo eles puderam identificar algo ofensivo, mas nos aprofundamos e começamos a perceber o que estava implícito no âmbito do humor.
Estava baseando o uso da palavra 'gay' na generalização tola de que homens de verdade não fazem gentilezas ou não podem ser refinadados e que minha caracterização do críquete foi exageradamente afeminada, sugerindo que gay e afeminado são sinônimos. Mas o que realmente nos tocou é ainda mais grave.
Não é que não podemos rir uns com os outros. Não é uma questão de hipersensibilidade. O problema é que hoje, enquanto escrevo isso, jovens, homens e mulheres, cujos comportamentos, escolhas e atitudes não são considerados "normais" estão sendo submetidos a todos os tipos violência física ou verbal. Eles estão sendo humilhados e ameaçados porque não se encaixam na ideia do grupo, de como o "homem de verdade" e a "mulher de verdade" devem parecer, agir e/ou sentir.  Para essas pessoas, fazer uso da piada na premissa da qual  eu me baseei contribui ao estereótipo negativo com o qual elas têm de lidar todos os dias (...)
E o pior é que eu deveria entender melhor isso. Minha vida diária é cheia de homens e mulheres gays, tanto social quanto profissionalmente. Sou muito consciente dos seus desafios e, em seus nomes, os defendia abertamente. Além disso, do meu jeito, vivi algumas de suas experiências.
Cresci na década de 1970 numa cidade que reverenciava os atletas e os esportes nas escolas. E eu estava na contramão ouvindo meus álbuns de teatro musical, estudando voz e dança e gastando todo o meu tempo livre no palco. Muitos dos mesmos insultos e zombarias e atitudes dirigidas a jovens, homens e mulheres gays, foram direcionados a mim. De vez em quando, também fui recebido com violência ou ameaça de violência. (...). Mas eu não fiz essa conexão. Eu não entendia. Agora, quero afirmar que entendo. E na medida em que essas piadas fazem alguém se sentir ainda pior ou simplesmente ferido, por favor, saibam que não foi minha intenção, definitivamente não..
Espero um dia viver numa sociedade que aceite uns aos outros e que todos possamos rir de piadas como essas e saber que não houve maldade ou diminuição pretendida. Mas ainda não estamos lá. Então, só me cabe pedir desculpas e o faço.
Na comédia, o 'timing' é tudo. E quando um grupo de pessoas ainda luta arduamente por dignidade e por direitos fundamentais, para serem socialmente compreendidas e aceitas, o 'timing' para algumas piadas/risadas ainda não tem vez.(...)
Original aqui.

5 comentários:

  1. deixa eu ver se eu entendi: ser chamado de gay pode, mas de efeminado não pq efeminado é ruim? é isso?

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  2. Ele destacou duas confusões que lhe eram comuns sobre as quais, após a sua análise, julga como tolices:
    1. que o refinamento e gentilezas no homem eram sinais de falta de masculinidade; e
    2. que gays e afeminados eram sinônimos.
    No primeiro caso, ele quis dizer algo do tipo: e daí se o cara tem gestos afeminados por ser mais gentil ou refinado?

    Nossa, está tão claro pra mim que ofusca os olhos.

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  3. Gostei da reflexão que ele conseguiu ter após esse incidente, acho que se todos parassem pra pensar veriam como é simples respeitar o diferente.
    A questão do afeminado querendo ou não sempre causa polêmica, no mundo gay até ser passivo parece ser motivo de vergonha, como se o detentor deste papel fosse o submisso da relação.
    Bjks!

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  4. pois pra mim, Junnior, é turvo como lama.

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  5. Eu gostei dom pedido de desculpas. Ele foi ao fundo e percebeu que o discurso dele contribuía para a manutenção de um discurso machista, base da homofobia. E, no que eu entendi ao ler, o pedido de desculpas dele se deve, principalmente, porque se ele não o fizesse, ao invés de desconstruir um discurso que é opressivo, ele estaria reforçando-o.

    Acho muito digno esse reconhecimento del, de verdade!

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