Mochilão [Harley Flausino]

__________________________________________________________________

Na Estrada, de Walter Salles, acabou de estrear. Baseado no romance de Jack Kerouac, ‘On the Road’ (1957), o filme, em linhas gerais, é comparável a outro do próprio Salles: ‘Diários de Motocicleta’ (2004). 

Diários mostra as primeiras aventuras de Che Guevara e seu amigo Alberto Granado. Os viajantes aprendem a arte da reflexão e se preocupam mais com os outros do que consigo próprios. Esse filme está no meu top 5 list.

Na Estrada tem cinco anos de sexo, drogas e jazz. A película relata uma longa viagem de jovens amigos que atravessam os Estados Unidos nos anos 50, transando, bebendo, escrevendo e delirando em busca de si mesmos e de uma vida mais libertária e menos burguesa. A viagem foi registrada e publicada em 1957, mas só virou filme agora graças ao olhar sensível do diretor brasileiro.

A trama central é a relação de Sal Paradise e Dean Moryart, mas aqui o foco é na aura homoafetiva. O longa descreve as viagens que Sal Paradise (alter ego de Jack Kerouac, interpretado por Sam Riley) fez através dos EUA e México ao lado de Dean Moriarty (personagem baseado em Neal Cassidy e interpretado por Garret Hedlund) e de sua namorada, a ninfa e sexy Marylou (Kristen Stewart).

Embora o filme trate da geração ‘beat’ com sexo e drogas, a liberdade das instituições burguesas - como família e trabalho -, é refletida na paixão pela estrada. O caráter homoafetivo do filme é bem nítido, inclusive pelas cenas declaradas de amor e sexo entre homens.

Seguindo essa viagem, outros personagens vão surgindo, como Carlo Marx (Tom Sturridge), amigo gay de Dean - todo trabalhado na melancolia porque não tem Dean como amante (pelo menos no período do filme) -, Camille, a loirinha “Helena de Troia com cérebro fodido” (muito bem interpretada por Kirsten Dunst), única personagem com o pé na realidade que, mais tarde, acaba se tornando uma das mulheres de Dean. E  vários outros coadjuvantes importantes.


Sal Paradise tem uma espécie de vínculo homoerótico com Dean. Este possui carisma e sex appeal natural para atrair mulheres e homens. 

Dean é um sedutor-em-série, portanto é indigno de confiança. Cativa os outros para obter o que precisa – e sempre precisa de alguma coisa. Por outro lado, as pessoas a quem cativava também precisam dele seja para sexo ou companheirismo. 

Os diálogos, descrevendo sentimento de amizade entre Sal e Dean, deixam qualquer conto homoafetivo no chinelo. Na estrada, outros amigos e conhecidos se juntam a eles e percebe-se que enquanto a dupla vai às montanhas, as mulheres são deixadas para trás. Já os dois amigos, mesmo com as separações, sempre voltam um para o outro reclamando da tristeza ocasionada pela ausência.

Carlo Max é baseado em Allen Ginsberg, amigo de Kerouac que era abertamente gay. Carlo se assume no decorrer da trama e se declara apaixonado por Dean. Os dois, em algumas cenas, são vistos na cama e numa delas Carlo se junta a Dean e Marylou, subentendendo  um ménage à trois.

Ginsberg e Kerouac se conheceram no inverno de 1943/44. Ainda que fosse assumidamente gay, Ginsberg era tímido demais para declarar sua paixão a Kerouac. Quando Neal Cassady chegou em Nova York (1946), seu objeto de desejo passou de Kerouac para Cassady com o qual, em seguida, se envolve intensamente - fato não mostrado no filme. Esse romance fez com que, anos mais tarde, Ginsberg caísse na estrada atrás de Cassady produzindo histórias suficientes para render outro filme.

Depois de viajar pelo país sucessivas vezes, Ginsberg se estabelece em São Francisco em 1954 para ficar próximo de Cassady. Lá, escreve seu longo e denso poema que o marcaria para sempre: Uivo [transformado no filme ‘Howl’ (2010), estrelado por James Franco, o mesmo que viveu Scott Smith no longa ‘Milk’ (2009), de Sean Penn].

Ginsberg gostava muito de viajar. Quando Uivo foi lançado o poeta estava em viagem próximo ao pólo norte. O livro rapidamente ultrapassou a inédita marca das 100 mil cópias, fazendo com que Ginsberg retornasse aos EUA como celebridade. Ele defendia uma sociedade plural, aberta às transformações e à exploração do desconhecido. Ele chegou a criar uma instituição dedicada à cultura ‘beatnik’.


Entrando no momento ‘gossip’ da coluna, foi produzido o documentário Com Amor, Carolyn - falando da geração beat sob o olhar de Carolyn Cassady, mulher de Neal Cassady. Para ela, a ‘geração beat’ foi algo inventado pela mídia e por Allen Ginsberg. 

Carolyn mostra no filme que já flagrou o amor da sua vida bêbado, drogado, nu com homens e mulheres, inclusive com o poeta Allen Ginsberg. O que parece é que o documentário é um desabafo amargurado da esposa submissa e traída pelo marido bissexual. 

“Beat” é uma velha gíria boêmia. Segundo as más línguas do movimento, Kerouac e Ginsberg roubaram a expressão de um cara chamado Herbert Huncke que apresentou a heroína para os dois. O termo nada tem a ver com a música (apesar das conexões de Kerouac com o bebop). Designa apenas a condição de se estar prostrado, inerte, no fundo do poço.

Como é de se esperar de um filme de viagem e estrada, as imagens são belíssimas. A fotografia impecável é de Éric Gautier - que também trabalhou em Na Natureza Selvagem (2007), de Sean Penn (meu filme preferido.

Na Estrada é, em última análise, uma espécie de tristeza comovente. O filme é interessante, mas não prende. Na sessão que assisti, metade do público saiu antes do término. Li vários relatos semelhantes em outros lugares. Chega a cansar pela repetição de situações. Parece mais um tributo à obra do Kerouac do que uma obra exclusiva de Walter Salles compreensível às gerações que não viveram àquela época. Acho que os personagens ficaram na superfície. Faltou uma situação em que o expectador atual, do século XXI, pudesse se identificar, algo mais atemporal, que é o que acontece com os clássicos.

O filme é também um relato sobre caras que gostam de conviver com outros caras. Aquela camaradagem masculina, inclusive sexual, que não são consideradas práticas homossexuais pelos mesmos. Percebo que essa característica vem sendo resgatada por outro movimento, mais atual e com características também atuais, chamado de ‘Movimento G0Y’ (zero entre as letras G e Y). Esse assunto fica para outro post ou como dica de pesquisa, caso alguém tenha curiosidade.

Sempre quis escrever aqui sobre filmes que abordassem viagens e mochilões com a temática LGBT. Mas é bem difícil em razão da escassez. Depois de Na Estrada, estou preparando novo post de filmes de viagens com temática homoafetiva. Por enquanto, me despeço lembrando que o espaço é aberto a críticas. São todas bem vindas.

Até a próxima!
_______________________________________
Leia mais postagens de Harley Flausino em sua coluna 'Mochilão IdG'.


5 comentários:

  1. Jogue G0Y no google e achei a ideologia deles muito rasa e baseada em homofobia.Uma "homofobia seletiva" já que não condena apenas a forma e as práticas com que eles vivem a sua atração física e emocional por outros homens.

    ResponderExcluir
  2. Muitissimo bem escrito. Parabens e nao sei ainda quando o filme vai ser exibido na minha neck of the woods mas espero assistir.

    ResponderExcluir
  3. Boas dicas Harley... vou ver se consigo ver.
    Abraços querido.

    ResponderExcluir

Para se cadastrar, preencha o formulário na coluna do lado direito do blog.
Seu comentário é bem vindo, desde que:
1. possua nome e link válidos;
2. não contenha cunho racista, discriminatório ou ofensivo a pessoa, grupo de pessoas ou instituições;
3. não contenha cunho de natureza comercial ou propaganda.
Grato pela compreensão.