Júnior Miranda

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A coisa de que Jack se lembrava e com que sonhava de uma forma que não podia evitar nem entender era a vez, naquele verão distante na Brokeback, em que Ennis chegara por trás e o puxara para junto dele, o abraço mudo satisfazendo alguma fome compartilhada e assexuada.(...) Mais tarde, aquele abraço sonolento consolidou-se em sua memória como o único momento de felicidade natural e encantada em suas vidas separadas e difíceis. Nada estragava aquilo, nem mesmo o entendimento de que Ennis então não o abraçaria de frente porque não queria ver nem sentir que era Jack que tinha nos braços. E talvez,  achava, nunca passassem muito daquilo. Que seja, que seja. (Annie Proulx, O Segredo de Brokeback Mountain)

A sinopse é bem simples: dois caubóis passam uma temporada cuidando de um rebanho de ovelhas, isolados numa montanha e lá se envolvem emocionalmente. Mesmo envolvidos, constroem famílias, mas, durante duas décadas, se encontram esporadicamente vivenciando um amor proibido.
Assisti “O segredo de Brokeback Moutain” no cinema, numa fase em que ainda enxergava a homossexualidade como pecado, idéia oriunda da forte influência religiosa, mas não conseguia negá-la dentro de mim. É certo que chorei em várias cenas, imaginando o quão dura era a vida daqueles personagens. Ambos viviam realidades distintas e o amor verdadeiro era, a todo o momento, vilipendiado. Chorava, imaginando que minha vida poderia ser assim. E eu não queria.

Seis anos depois, assisto novamente ao filme e ainda me emociono. Dessa vez, por conseguir viver o amor em sua plenitude, por ter conseguido me libertar das amarras do preconceito e poder sentir um amor que, ao contrário da frase de Oscar Wilde e do próprio filme, ousa dizer o nome. Um amor sem medo, sem barreira, sem entraves, sem estar preso a uma montanha ou lembranças; sem segredos.
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7 comentários:

  1. ah esse texto merecia mais detalhes.

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  2. Eu gostei. Você disse muito em tão pouco. Emoção,medo, segurança, liberdade, entendimento e amor. Você falou de tudo.
    Abraços

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  3. E complementando o que a Margot disse, eu diria que o texto é bem lírico!

    Beijos

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  4. menos é sempre mais
    adorei este texto tão emotivo quanto o filme

    beijos

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  5. Lindo! E que legal que você superou toda aquela homofobia internalizada para seguir um caminho mais feliz, mais livre do que o de Ennis Del Mar.

    Chorei e ainda choro vendo esse filme. Já estava fora do armário quando saiu no cinema.

    Abraço forte,
    Sergio Viula
    www.foradoarmario.net

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  6. O filme realmente trás a tona sentimentos muitos fortes, me faz lembrar dos primeiros relacionamentos que tive, com esse tempero vida "normal" versus ao mundo pecador vamos por assim dizer.
    Quando a gente se envolve por um hetero, quando rola algo então, parece que a vida tem um sabor de mistério, dúvidas, medos.Enfim, o amor e complexo mesmo.

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  7. Revisitar emoções é sempre bom. Pode ser surpreendente!

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