A orientação sexual dos personagens (solteiros) dos livros cuja abordagem não é o romance, mas a aventura, ficção, comédia, drama, enfim, tantas outras, é ainda hoje subtendida. Claro que, quando se faz necessário ou se o enredo exige, eventualmente algum personagem gay dá o ar da graça (literalmente). Fato é que o mainstream da literatura não evidencia, os leitores não questionam porque o mundo vive a sua heteronormatividade. Certo?
Errado. Pelo menos nas tirinhas, departamento da literatura mais delicado uma vez que lida com crianças, isso vem mudando.

Vimos há alguns meses (aqui e aqui) que duas das maiores editoras, a DC Comics e a Marvel, decidiram destacar/inserir a homossexualidade de alguns dos heróis mais famosos do planeta: Lanterna Verde e Nosthstar, respectivamente. Isso gerou polêmica e pessoas dos quatro cantos do mundo apoiaram, criticaram, bradaram ou comemoravam.

Dentre as que mais criticaram, adivinhe de qual parte do mundo vieram as mais preconceituosas? Do Brasil. Segundo o quadrinista James Robinson ('Earth 2'),  os piores ataques contra a versão homossexual do herói Lanterna Verde vieram dos brasileiros. Numa palestra sobre a homossexualidade nos quadrinhos, que aconteceu na última quinta-feira, 19 de julho, na feira de quadrinhos realizada  na  Comic Con, São Diego, Califórnia (EUA), Robinson disse que recebeu muitas críticas, porém "as mais hostis vieram de tuiteiros do Brasil: Eu havia saído na noite anterior e no dia seguinte, pela manhã, comecei a tuitar escrevendo: 'putz, meu fígado está me matando'. Alguém respondeu algo tipo: 'deve ser vingança do seu fígado pelo que você fez com o Lanterna Verde'. Então, só de maldade, no próximo romance de Allan Scott, o homem de sua vida será um brasileiro, brincou o autor. 

Talvez por causa da controvérsia geral, do envolvimento do público infantil e/ou devido à visibilidade de um mercado próspero, as editoras começam a debater publicamente o tema.  Naquela feira, a mesa debatedora, moderada pelo presidente da Prism Comics, Charles Christensen, incluiu os escritores Gail Simone ("Batgirl", "Birds of Prey"), James Robinson ("Earth 2"), Ivan Velez ("Static"), e os artistas Oliver Nome ("Fathom") e Nicola Scott ("Earth 2"). 

Os palestrantes discutiram os recentes acontecimentos sobre os primeiros casamentos homossexuais tanto na Marvel Comics quanto na Comics Archie e pretenderam definir regras e políticas de abordagem e acompanhamento para esse tipo de personagem.
Durante o evento, Simone disse que vê a onda de interesse em personagens LGBT como uma coisa boa e, embora o público possa encarar os eventos recentes como uma manobra das editoras, eles são importantes para o avanço da representação de personagens gays em quadrinhos. 
- É um trampolim. Quando os primeiros personagens gays surgiram, eram espécies estereotipadas, algo brega, disse Simone.
 - Não os meus, rebateu Velez, que fez o público cair na gargalhada.
[Ivan Velez é também reconhecido pelos trabalhos publicados na Gay Comics, Details Magazine, NYQ e HX e tornou-se conhecido como o criador de 'Tales of the Closet' , uma novela gráfica de 10 capítulos que mostra as vidas de oito adolescentes gays no Queens. Ele ganhou uma concessão xeric 2004 e vai usá-la para começar uma série do seu próprio selo: Planet Productions Bronx] (via Prism Comics)
A discussão continuou e partiu para a forma de escrever as estórias para esse tipo de personagem. A preocupação é não fazer dele um dublê ou um truque. 
- Pessoalmente, eu me sentiria tenso se escrevesse algo cujo vilão fosse gay porque há tão poucos personagens gays que prefiro tentar criar antes exemplos positivos de personagens gays, tanto quanto eu puder, declarou Robinson, que é heterossexual.

Velez, que é gay, pensa diferente. Segundo ele, personagens gays devem ser escritos com viés positivo e negativo. Dependerá do personagem. A julgar pela reação, muitos membros da multidão concordaram com ele.
O participante Kelsey Toy foi ao microfone e disse: 
- Eu acho que é  mais importante termos personagens humanos. Eles são complicados, são falhos e são estranhos também. Acho que o caráter humano é mais do que apenas uma imagem positiva ou negativa dos personagens.

O painel mudou para o elemento visual. Christensen perguntou aos debatedores se eles pretendiam desenhar os personagens gays de maneira diferente da que fazem com os heterossexuais. 
- Eu sinto que realmente depende do próprio personagem, disse Scott. Oliver concordou dizendo que isso depende mais do caráter e da personalidade dos personagens do que da orientação sexual.

O assunto da pressão das editoras para introduzir a diversidade sexual aos seus títulos também foi abordado. Enquanto alguns membros do painel disseram que as editoras, às vezes, pedem os criadores para incluírem maior diversidade aos seus personagens, eles têm opiniões variadas sobre o papel deste tipo de "interferência".
Robinson declarou que a versão gay de Alan Scott foi criação sua, muito embora ela tenha partido de uma decisão da DC Comics que pretendia introduzir a diversidade sexual nas tirinhas.
 - Pediram-me para introduzir mais diversidade sexual em "Earth 2". Eu não me importei com isso porque estou mostrando o mundo ao mundo, disse Robinson, que foi aplaudido pela multidão.

O entusiasmo e a solidariedade dos presentes não foram novidade para o painel da palestra. Ao longo dos anos, os quadrinistas têm obtido uma resposta mais positiva do que negativa aos esforços para introduzir mais diversidade nas estórias em quadrinhos.
-  Lembro que na década de 1990, eu recebi cartas até de bandidos que diziam: 'Legal, Fade é o cara. Fade é o cara', disse Velez.

Fonte: CBR

6 comentários:

  1. amigo, qrido, tem um erro na matéria, a Comics Archie é uma editora que publica a série Archie em q tem um personagem gay, a editora do Lanterna Verde é a DC Comics.

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  2. Vc tá certo, Foxx. O texto foi corrigido. Foi um equívoco cometido durante a tradução (o texto original falava em Comics Archie), mas as postagens citadas nos links já constavam a DC Comics.
    Obrigado. ; )

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  3. De volta depois de alguns dias de passeio ... vou ler seus posts do período ...

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  4. eu não me surpreendo mesmo com o fato do maior número de preconceituosos venha do Brasil
    é só ver nos grandes sites qualquer reportagem sobre homossexuais como o povinho se manifesta com comentários da pior espécie!

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  5. A mim também não me espanta, isso só me decepciona, porque fica algo muito irônico: Brasil cheio de diversidade, em todos os setores e também tão preconceituoso.Educação carente é isso!Abs!

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  6. Educação deficiente + Religiosidade excessiva + povo com formação de caráter duvidoso em sua imensa maioria = povo brasileiro...
    Não é de se espantar a homofobia brasileira...

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