Há alguns meses li o resumo da história de um homem e ficou guardada na memória. Ontem assisti ao filme sobre este mesmo homem, John Edgar Hoover (1895-1972). A sua história envolve outros nomes marcantes sobre os quais falarei no decorrer da postagem.
Algumas pessoas descreveram John como um homem frio, enigmático e preso em si mesmo. Entretanto, frieza não foi exatamente a sensação que tive após conferir o belíssimo filme do ator e diretor Clint Eastwood: J. Edgar (EUA - 2011). 
Sobre John, há uma característica sobre a qual todos hoje em dia concordam: foi um dos homens mais poderosos do seu país. O mérito foi conquistado com trabalho obstinado e exagerado, principalmente na juventude quando, desde os 20 anos de idade, reivindicou prazeres e diversões que os jovens têm direito para se dedicar ao curso de direito e ao emprego no departamento de justiça dos EUA. Aos 25, ele foi nomeado chefe, depois diretor do FBI e, como tal, permaneceu até sua morte em 1972, aos 77 anos.
Hoover reinventou o FBI. A antiga e ineficiente organização de 657 agentes (muitas vezes corruptos), tornou-se, graças ao seu empenho, a maior organização policial do planeta, com mais de 16000 funcionários e os mais modernos métodos de investigação criminal. [Wikipedia]
O poder e a fama foram galgados não somente pela política moderna que Jonh implementou ao FBI, e na qual concentrou informações para combater os crimes federais, mas também por ações duvidosas e inescrupulosas. Ele chegou a elaborar dossiês sobre todas as pessoas que podiam afetar a segurança da nação, dentre as quais governantes importantes, incluindo os oito presidentes da república que exerceram mandatos durante as cinco décadas em que esteve à frente do FBI. Graças aos arquivos confidenciais, John manipulava essas figuras públicas, além de intimidar todos que ousassem questionar a sua orientação sexual. Perseguições infundadas e até corrupção a ele relacionadas foram comprovadas após sua morte. 
E aqui entra a mágica do filme.
Apesar da imagem obstinada e insensível, do esforço para o reconhecimento do trabalho e ser visto como herói, John amou desesperadamente Clyde Tolson [no filme, interpretado por Armie Hammer, o gatão que viveu  os gêmeos no filme “A Rede Social”] e com este manteve um romance por toda a vida. 
Eastwood foi brilhante na maneira como trabalhou o amor clandestino dos dois personagens. Percebe-se o cuidado ao lidar com questões tidas como especulativas sobre as quais, apesar das evidências, ninguém conseguiu reunir [ou divulgar] provas. Muito se falava sobre a homossexualidade e da fama de se vestir de mulher do protagonista. Eastwood se pronunciou a respeito: O roteiro procurou incorporar todas as especulações sobre o personagem, mas não seria justo apresentá-las como verdade. No filme, ele põe o vestido da mãe quando ela morre. E o que isso quer dizer? Que ele era gay ou que queria apenas se sentir perto da mãe? Tratamos da mesma maneira o seu suposto envolvimento com o seu assistente . Quem poderia saber se foram realmente amantes?

Pessoalmente, creio que Eastwood foi cauteloso na declaração acima, muito mais do que o primoroso roteiro de Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por “Milk”). Nele, entrevemos uma comovente história de amor mesmo o filme mostrando um único beijo na boca.
Sem dúvida, Leonardo DiCaprio interpreta, senão o, um dos melhores trabalhos de sua carreira até hoje, absurda e inexplicavelmente ignorado pelo Oscar. O filme chegou a ser cotado como um dos suscetíveis a várias indicações pela Academia, porém, como vimos, foi totalmente ignorado. Alguns atribuem o fato à superficialidade com que o diretor lidou com o lado obscuro de Hoover, principalmente a homossexualidade do todo poderoso chefão do FBI. Sobre isso, concluo que, apesar de discreto na abordagem, Eastwood não se furtou de forma alguma, ao contrário, ele conseguiu deixar clara a relação de profundo amor havido entre Hoover e Tolson sem gerar desequilíbrio entre ficção e realidade. Os principais acontecimentos públicos que levaram ao boato sobre o romance estão no filme: as férias gozadas sempre em conjunto, as viagens, a constante presença de ambos em vários restaurantes e até o fato de Tolson ter sido o único herdeiro do patrimônio de Hoover.
O filme ainda retrata a relação submissa com a mãe dominadora (Judy Dench) e a ligação com a leal secretária (Naomi Watts). A meu ver, nenhum fato passou despercebido. Eastwood não somente expôs a  imagem de durão de Hoover, mas também a de uma pessoa solitária e frágil.
Leia mais trechos da entrevista de Clint Eastwood para a revista Isto É:

Isto É - Como ele era tratado pela mídia na época?
CE - Como um dos policiais mais admirados e temidos do país. Eu mesmo cresci tendo Hoover como um herói. Só muito mais tarde descobri que a história não era bem assim.
Isto É - O que mais o fascina na personalidade de Hoover? 
CE - A sua obsessão pelo poder. Ele comprova a teoria de que as pessoas sempre fazem coisas estranhas quando estão no topo do mundo. A verdade é que ninguém deveria ficar no mesmo cargo por tanto tempo. No seu caso, foram 48 anos. É tempo demais. Muitas vezes, vemos os governantes perder a noção do que fazem em apenas alguns anos de administração. Os últimos anos de sua vida passou seguindo mais os movimentos pela liberdade dos negros do que investigando crimes.
A verdadeira essência da nossa democracia está enraizada na crença do valor do indivíduo que a vida tem um sentido que transcende o sistema, que o amor é a maior força da terra, muito mais duradouro que o ódio ou as divisões artificiais da humanidade. J. Edgar.

4 comentários:

  1. Não vi o filme, mas parece ser espetacular. E vc fez um resumo da trajetória dele verdadeiramente instigante.
    ABraços

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  2. Não me perdôo por ainda nao ter visto esse filme. Di Caprio tá igual vinho. :D

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  3. Não me perdôo por ainda nao ter visto esse filme. Di Caprio tá igual vinho ... [2]

    bjão

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  4. Olha, parabéns pelo texto! Você me fez ficar com uma bruta vontade de assistir... mesmo não gostando do Di Caprio.

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