Como quase todo mundo, fiquei atônito com a matéria da revista Veja (que leio sempre), publicada na última semana: "Parada gay, cabra e espinafre". Com razão, você pode questionar essa reação pois a reportagem é motivo para indignação e não pra ficar embasbacado. 

O problema é que muitas pessoas - eu e provavelmente você que acompanhamos de perto o universo gay porque é a nossa realidade - fica desacreditada da capacidade do ser humano de olhar além do umbigo. É a mesma coisa quando dizemos que algumas pessoas nos dão preguiça. 

O deputado Jean Wyllys definiu bem o que sinto num dos trechos de seu manifesto a respeito das palavras de José Roberto Guzzo, o jornalista responsável pela matéria infeliz e provocantemente preconceituosa: "foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que eu dominei meu asco e decidi responder...".

Compartilho a mesma aversão do deputado, mas acompanhada de falta de estímulo, enfim, daquela preguiça que citei mais acima. A diferença é que não fui chamado por ninguém, além de mim mesmo. A única pressão que sinto vem de dentro, motivada pelo Identidade G, um blog que tenta mostrar o cotidiano do gay comum, cumpridor de seus deveres civis, pagador de seus impostos [literalmente impostos]. 

É clichê demais escrever o que vem adiante, mas estou me reportando a um texto ordinário e desrespeitoso, mesmo tendo sido publicado numa revista bem conceituada, então não mereço me consumir tanto. 

O gay tem vida própria. Óbvio. Ele tenta interagir com a política do país na esperança de conhecer um representante do povo que traga respeito e bem-estar não somente aos homossexuais, mas à população em geral; ele vive procurando não só diversão e arte, que são deliciosas, mas amores verdadeiros e eternos enquanto durarem; ouve música; assiste a bons filmes no cinema; dá beijos na boca. O que não parece tão óbvio é a aceitação de que ele merece direitos civis iguais porque transa com pessoas do mesmo sexo. 

Deixemos agora a delicadeza de lado - sem abrir mão da beleza. O ponto forte desse preconceito todo é que algumas pessoas não conseguem enxergar boniteza na homossexualidade. Ou simplesmente se recusam a aceitar o fato de que o prazer é uma sensação única para todas as espécies vivas da terra. 

Podemos usar o próprio jornalista Guzzo como exemplo. Se for de fato um homem heterossexual, como pretendeu mostrar, talvez ele não consiga enxergar - se enxerga não aceita - que a mesma sensação que um homem alcança pelo sexo proporcionado pela mulher (e vice-versa) é igual, é idêntica a que um homem gay ou uma lésbica sente por outro homem ou mulher, respectivamente.

O prazer motivado pelo sentimento de paixão ou de amor não muda de acordo com o gênero sexual do sujeito, é o 'objeto' do prazer que muda - por objeto entenda-se pênis, vagina ou ânus. 

Seria desnecessário se não fosse oportuno dizer que a vagina não me desperta vontades. Não desejo a xoxota. Diria que a distância mínima necessária entre mim e ela, para que possamos conviver em harmonia, seria de um metro, seja qual for o ângulo. Logicamente vestida. Isso deve dar nojo em muitas pessoas, mais ainda porque elas logo imaginam (com razão) que a relação pessoal que tenho com o pênis é bem diferente. Sim, eu desejo o pênis de outro homem o mais próximo possível de mim, de preferência beijando a minha boca. 

Sentiu repulsa? I am sorry, mas também sinto algo parecido quando imagino o beijo na vagina, a diferença é que esse sentimento não se estende à dona da vagina. E isso de forma alguma seria impeditivo para uma aproximação maior da vagina. Podemos amistosamente dialogar e nos respeitar. Quem sabe até despidos? Desde que ela saiba que o meu pênis tem outra preferência, tudo bem.

Agora, vamos num tom mais lúdico. Sexo de homem com homem é aventura, é explorar e escalar montanhas quanto mais sinuosas melhor. Entre mulheres - me corrija uma lésbica se me esquivo dos detalhes - é uma agradável caminhada por planícies floridas. É se deitar e se esfregar com as flores. 

O prazer é único, seja você que bicho for, cabra ou cobra criada. São as espécies de prazer que mudam, mas isso é outra história que tem a ver mais com o ser humano e mais ainda com a natureza, o caráter e/ou personalidade dele. Tem quem sinta prazer na infelicidade dos outros, diminuindo ou desrespeitando, se sentindo superior com a inferioridade alheia. Enquanto for assim, os guzzos, gozos ou orgasmos serão desproporcionais aos amores, às paixões e ao respeito à dignidade (ou ao esforço de quem a procura).

E vamos concordar com alguma coisa: a época em que ser homossexual era um problema já deveria ter ficado para trás.


4 comentários:

  1. O seu texto está deliciosamente claro, limpo, objetivo... erótico, libidinoso (rsrs), genital... melhor impossível! Amei de paixão! A única coisinha que discordo é você dizer que essa revista é “bem conceituada”. Mas isso é questão de opinião... talvez as cabras não achem...

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  2. Espetacular Junior. Estava esperando um post seu a respeito. E concordo com o que o Lucas disse. Ele(o post) veio recheado de imagens lúdicas e dignas.
    O respeito, o amor, o prazer e o gozo são direitos inalienáveis dos ser humano.
    Jean e você deram a seu público e leitores, uma resposta à altura oposta, do nojento preconceito e desrespeito do Sr. Guzzo, endossados pelos editores da revista.
    Beijos querido

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  3. Devia sim está no passado esse preconceito, mas fazer o que se ainda tenta fritar até os mais inteligentes, que perdem tempo nos comparando com cabras, e viram que um funcionário fez logo um video tentando defender o amigo? Tadinho, quem eles querem enganar. Bjs!

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  4. apesar de eu ter achado sua comparação entre o sexo lésbico e gay meio machista, eu gostei muito do texto, parabéns!

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