Desde que o  parlamento da União Européia votou, em 2010, a favor do relatório que determina os 27 países aderidos a defender e reconhecer mutua e legalmente a união civil entre pessoas do mesmo sexo, a França ainda encontra dificuldade para atender tal exigência. Por lá, manifestações populares, contrárias à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo (chamemos de "casamento" para simplificar), começaram em 2012 e já no início de janeiro de 2013 milhares de parisienses foram às ruas para o mesmo fim.
Em 14 de junho de 2011 a Assembléia Nacional da França obteve 293 votos contra e 222 a favor da legalização do casamento. Os membros do Partido Socialista afirmaram, depois da votação, que a legalização do  casamento se tornaria uma prioridade  através da busca de uma maioria no legislativo francês para 2012.
Durante a última campanha para a eleição presidencial francesa, o Partido Socialista, com o  candidato François Hollande, declarou que apoiaria o casamento homossexual, a adoção para casais LGBT e que tinha planos de seguir essa pauta no início de 2013 se vencesse as eleições. Em 7 de maio de 2012 Hollande foi eleito presidente.
Agora presidente, Hollande transformou o casamento gay uma das vitrines de sua plataforma presidencial. A questão se transformou em um campo minado para o governo e para a oposição, pois a homossexualidade é amplamente aceita no meio urbano da França, mas o preconceito ainda é predominante nas áreas rurais e pela direita católica conservadora.
Um projeto de lei está previsto para ser votado antes do governo tentar a alteração do Código Civil  (código que remonta à época do imperador Napoleão) para permitir os casamentos. A nova lei pretende substituir os títulos "mãe" e "pai" para apenas "pais" no reconhecimento legal da adoção.
No momento, a iniciativa do presidente François Hollande para legalizar o casamento está configurando uma batalha épica, não só entre esquerda e direita, mas também entre a França urbana e  a França rural. O líder do principal partido da oposição (centro-direita), Jean-François Copé, recebeu  uma tempestade de críticas quando conclamou a população protestante a ir às ruas se manifestar contra todos os projetos de esquerda que ameaçam os "pilares da nossa sociedade".
Ele sugeriu que, se  ganhar a batalha para a presidência do partido, em fevereiro próximo, convocará os eleitores de direita a realizar protestos em massa para proteger "o futuro das crianças francesas". Ele utilizou como exemplo as grandes manifestações de extrema-direita que protestaram - com sucesso - contra a abolição das escolas católicas em 1984.
Separadamente, os políticos rurais - nem todos são de direita - estão em campanha para a  "cláusula da consciência" a qual propõe que os prefeitos de aldeias e pequenas cidades tenham o direito de recusar a  realização de casamentos gays quando estes se tornarem legais, como é o esperado para início de 2013.
Deputados socialistas originalmente pretendiam fazer uma emenda à atual lei do casamento de modo a incluir o acesso a técnicas de reprodução assistidas para lésbicas, mas desistiram quando notaram que isso causaria mais polêmica e prejudicaria a aprovação do casamento homossexual.
O governo agora planeja incorporar a questão a um projeto de lei da família que poderá ser aprovado em março pelo gabinete. Tugdual Derville, um dos líderes protestantes, disse que a oposição poderá novamente organizar um protesto quando aquele projeto for definido.
A enorme manifestação ocorrida agora, no início de 2013, contra o casamento e as adoções por pessoas do mesmo sexo não abalou a determinação do governo francês para aprovar brevemente essas medidas. Num dos maiores protestos das últimas décadas no país quase meio milhão de pessoas fizeram uma passeata em Paris exigindo que Hollande retire o projeto de lei e promova um debate nacional sobre qualquer mudança na definição do casamento.
Muitos manifestantes disseram aos jornalistas que a decisão de sair às ruas em um dia tão frio como aquele foi devido ao fato de o governo não realizar um debate amplo antes de promover a reforma, especialmente a respeito dos direitos de adoção para os homossexuais rejeitados por uma estreita maioria da opinião pública.
A maior batalha de frente para a legalização do casamento,  ao que parece, deve  ser rural-urbana, ao invés do que tradicionalmente ocorre quando  a esquerda e a direita tomam para si a prerrogativa de lutarem em prol da manutenção ou progressão dos direitos civis conquistados pelos cidadãos. De todas as  pequenas aldeias e cidades rurais da França, 36.000 prefeitos já começaram a campanha para terem o direito de recusarem a realizar casamentos gays em salões de suas cidades, caso a lei seja aprovada pelo presidente.
Fonte: The Independent
Foto - ABC News
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Harley Flausino
Sobre o autor:
Formado e pesquisador em políticas públicas sociais pela Universidade de São Paulo. No momento mora em SP onde trabalha com gestão pública cultural. Gosta de escrever sobre sociologia, política e turismo cultural. Criador da comunidade 'Mochileiro LGBT' no Facebook (harley.flausino@gmail.com / facebook.com/harley.flausino)

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