Em outubro de 2012, o cartunista [ou quadrinista, como queira] Laerte Coutinho conversou com os repórteres da revista 'Continuum' e falou sobre a polêmica mudança em sua vida desde que passou a se vestir de mulher publicamente. Confira o papo aberto e franco do mais famoso cartunista do país que, entre outras declarações, confessa que não gosta do termo 'crossdressing'  e nem, muito menos, se sente uma.

[Texto de Carlos Costa e Veronica Papoula Mendes. As duas primeiras fotos são de André Seiti. A revista Continuum é uma publicação eletrônica do Itaú Cultural]

"As questões de gênero não cabem mais em conceitos simplistas. Homens fazem a sobrancelha e mulheres governam nações. Mesmo assim, no guarda-roupa masculino não cabem laços, rendas e babados e, para um garoto, ser feminino costuma gerar repreensão.

Imagine então ser um bem-sucedido profissional, pai de família, e resolver vestir-se de mulher. Se a proposta parecer improvável, conheça mais sobre o cartunista Laerte Coutinho, de 61 anos.

Ele é um mito dos quadrinhos brasileiros, com uma trajetória de luta contra a ditadura militar e produção admirável. Acaba de concorrer ao Prêmio de Melhor Atriz em um festival de cinema brasileiro e conversou com a Continuum sobre sua experiência pessoal e impressões a respeito de como a sociedade determina e tolhe o comportamento das pessoas.

O encontro ocorreu na Casa de Cultura Japonesa, no campus da USP, em São Paulo, onde ele participava de um seminário sobre ética animal. Vestia minissaia jeans, regata verde com renda e camisa xadrez e usava pulseiras, brincos e as unhas pintadas de azul – “Chow chow, da série com nomes de cachorros da Risquê”, precisa.

Em sua fala, mescla o próprio gênero, empregando ora o artigo masculino, ora o feminino, com naturalidade. “Estou farta de ouvir: ‘Não sei como devo chamar você, de ele ou de ela’. Isso não importa! Me trate com respeito!”

O que é crossdressing?
Detono o conceito crossdressing. É um termo que nasceu nos Estados Unidos para grupos de homens heterossexuais transgêneros. A  transgeneralidade é um termo guarda-chuva, define pessoas que manifestam conflito de gênero ou identidade sexual e as separa das travestis. Ou seja, os caras mantiveram o estigma sobre a homossexualidade e criaram os clubes de crossdressing.

A palavra migrou para o Brasil. Perdeu muito do sentido sexista e ganhou um conteúdo classista, típico da nossa cultura. Quem se diz crossdresser quer manter um status de normalidade, não quer ser visto como travesti, homossexual. Aí, parece um hobby, do tipo ‘faço escalada e crossdressing’. Isso não me serve porque esse é o modo como me visto normalmente, não é mais algo que eu pratique, é o meu modo de expressão. Não tenho mais roupas masculinas.

Se você digitar CD ou crossdressing, no Google, vai achar sites de pessoas que fazem programa, implantes e modificações corporais. Se aprofundar o conhecimento sobre as travestis, vai saber que muitas não alteram o corpo, não fazem programa, ou não gostariam de estar fazendo. São contingências sociais que precisam ser reconhecidas. Não podemos fazer das palavras trincheiras ou usá-las para isolar determinados grupos.

Meu objetivo é uma situação na qual não existam separações. Essa vivência me leva a pensar e descobrir a dimensão do gênero. Por que as condições biológicas determinaram um edifício cultural tão absolutamente sólido e muros intransponíveis?

Gênero é uma construção social que faz parte da cultura e não da biologia. As possibilidades são inúmeras. Que tipo de futuro aguarda o ser humano em relação a esses costumes? Vamos continuar chamando determinadas coisas de femininas e masculinas?

O começo

Em 2004, comecei a fazer tiras mais poéticas, mas elas não tinham relação com o travestismo. Eu me lembro de uma entrevista em que Chico Buarque falava que via a canção historicamente limitada ao século XX. Que o ciclo havia se cumprido e brotavam caminhos diferentes, como o rap. Concordei com o tom do raciocínio e pensei se a tira, o cartum, esta merda, não estava historicamente cumprindo seu ciclo. No meu trabalho pode estar. Eu sinto isso.

Dessa forma, fui acabando com meus personagens. Mantive só a Muriel. Comecei a dar bandeira nas minhas tiras com o Hugo [personagem crossdresser]. Recebi um e-mail de uma pessoa, atualmente minha amiga, que me mostrou essa possibilidade. Que não é loucura se vestir com roupas femininas, usar salto. É legal. O Hugo é a Muriel, e agora está mais para a Muriel. Tanto que chamam as histórias de “O Blog da Muriel”. É uma reflexão sobre o que estou fazendo nesta direção [veja quadrinhos do personagem na página 36]. Levei muito tempo até que resolvi fazer uma sessão de crossdressing em um estúdio que achei na internet [Studio Dudda Nandez – duddanandez.com.br]. Voltei outras vezes e fui criando vínculo.

O primeiro passo foi a depilação, com cera quente. Um momento de redenção, de se sentir descoberto. Ver meu corpo sem pelo foi como me ver sem uma coberta. Na segunda sessão, eu me vesti com tudo que ela propôs: sutiã com prótese, maquiagem etc. Ela fotografou, me deu liberdade.

Normalmente o homem transgênero não tem muita noção e explora determinados modelos, personagens. Tenta parecer Marilyn Monroe, atrizes, cantoras. Nesse ponto, está muito perto da realização de uma fantasia…

Tenho 61 anos e é agora que estou assumindo essa expressão. Roupas, maquiagem. Isso vem desde que me entendo por gente, mas sempre falou muito forte o lado da regra, da proibição, do crime e do pecado. Não só na questão de gênero como também na da orientação sexual. Demorei muito tempo até ficar em paz com a ideia de que também sou gay, que há isso em mim.

Provavelmente, muito do desejo de aproximação que sentia por mulheres era um desejo de aproximação do modo de ser feminino. Eu me pergunto se isso também não é o que move os famosos “casanovas” por aí. Quanto de um garanhão, comedor, não é também transgeneralidade?

A transformação do corpo

Existe uma cultura de transformação corporal que, para mim, é meio assustadora. Adaptações ósseas, reconstrução facial, tirar o gogó. Tenho respeito e admiração pelas pessoas que fazem isso. Mas não sei se faria. Parece difícil e dolorido.

A prática me fez escolher melhor as roupas e o que visto. Por exemplo, tinha uma prótese de bunda que usava com calças, para ficar com o quadril maior. Não uso mais. Penso meu corpo como ele é e escolho roupas mais adequadas para minha expressão. O modo como a gente se veste é um modo de expressão.

Em casa tenho sutiã com prótese, mas não dá para usar com qualquer roupa. Depois, comecei a gostar do meu corpo sem peito também. O que tenho considerado é colocar próteses de silicone. Não colocaria bunda nem tomaria hormônio porque, na minha idade, não funciona mais.

A gente gasta com o que precisa. Uso laser para fazer a barba e creme antirrugas, mas gasto mais grana com a minha gata, Celina, que é paraplégica. Levou um tiro de chumbinho há cinco anos e perdeu o movimento das patas de trás.

A mudança de costumes

Devagar ou rápido, aqui ou lá, dependendo do tempo e do lugar, os costumes estão se transformando. Está ficando claro para todo mundo que orientação sexual e gênero são coisas distintas. Não há um vínculo único. A ideia de que todo cara que se vestir de mulher é gay não existe. Tenho muitas amigas que são travestis e são heterossexuais. Não gostam nem têm atração por homem.

Ver o gay como mulherzinha é um insulto antigo, fora de moda. Às vezes, tentam ser mais masculinos do que o próprio homem. Para a mulher, essa dinâmica é mais clara porque corresponde a uma mudança que vem do século XIX e abrange a conquista do direito civil, a inserção no mundo do trabalho. Hoje, as mulheres podem sair de camiseta e coturno e não serão questionadas sobre sua sexualidade.

Agora, a parte masculina dessa revolução não deslancha. Se um sujeito bota um vestido e vai para a rua, é imediatamente hostilizado e estigmatizado, ou colocado em uma espécie de redoma. No meu caso, eu posso porque sou artista, tenho filhos criados, uma namorada que entende.
Foto de Rogério B. Huss
Meu nome feminino 

Toda pessoa nesse circuito tem um nome feminino. Gosto de usar Laerte. Quando abri o fato, o que sou e faço, achei que podia continuar Laerte. Não vi sentido em mudar de nome. Tenho identidade feminina e identidade masculina.

No Hospital das Clínicas, por exemplo, vou travestida, ou melhor, vou vestida. Na hora de fazer o cartão, perguntaram se eu queria usar meu nome social e eu disse que sim. Realizo exames masculinos, por isso me defini como homem. Mulheres não têm próstata. A transgeneralidade está sendo entendida, conquistando espaço. Em hotéis, eu me registro como Laerte Coutinho, sexo feminino.

As situações são óbvias. Se a pessoa está na sua frente com peito, brinco, maquiagem, é evidente  que ela quer ser tratada como feminino. Na maior parte das vezes não há espaço para confusão e quem não souber como tratar que se foda! Não é uma questão de gênero. É respeito.

Aceitação

A repercussão do meu gesto me surpreende. É evidente que as pessoas põem reparo e atenção em mim, não pela minha carreira como cartunista, mas pelo meu modo de ser. Depois disso [de começar a se travestir], fui convidado para mais entrevistas do que havia sido na soma total da minha carreira como cartunista.

Penso no que, exatamente, está por trás disso. Talvez seja um grito contido de apropriação masculina do vestuário feminino. Se me vejo como parte do movimento transgênero, LGBT, há um objetivo claro que é ver as travestis e os transexuais com dignidade, com os mesmos direitos que as outras pessoas. Não queremos apenas não ser espancadas, queremos sair pelas ruas, usar o banheiro feminino, casar, quando for o caso; queremos todos os acessórios da nossa especificidade, sem escândalo.

Se estou servindo de exemplo e ajudando, ótimo. Mas tenho muito mais o que aprender ou absorver das travessias de vida do que o contrário.

Honra e glória

Documentário sobre o cartunista mistura gêneros e é premiado como Melhor Filme no Festival de Brasília

Laerte reverte uma questão contra a qual sempre lutaram os movimentos feministas e libertários: por que há desonra em ocupar o lugar feminino em detrimento do masculino? Na sua história, não há desonra. Há glória.

O cartunista concorreu ao Prêmio de Melhor Atriz de Curta-Metragem no 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro como protagonista de Vestido de Laerte (Cláudia Priscilla e Pedro Marques, São Paulo, 2012). Não levou o prêmio, mas infiltrou a mensagem e o curta ganhou como Melhor Filme e Melhor Direção de Arte. O produtor, Kiko Goifman, ao agradecer os troféus, lembrou que é preciso pensar em gênero, dentro e fora do cinema.

O diretor do filme, Pedro Marques, de 29 anos, se entusiasma ao explicar por que Laerte foi tema de sua estreia no cinema. “Ele é o auge da liberdade, o exemplo do que é um cara ser livre.” Colega de escola de Diogo, primogênito de Laerte, morto aos 22 anos em um acidente de carro, Marques resolveu ter o cartunista como tema por admirar seu trabalho e sua trajetória, na qual destaca dois momentos: o primeiro, entre 2004 e 2005, quando se dá o acidente e os quadrinhos de Laerte enveredam pelo caminho da poesia, do experimentalismo. O segundo, com o travestismo.

No filme, Marques e sua parceira Cláudia Priscilla também brincam com gênero, fazendo uma ficção que parece ser um documentário. O motivo da história é a busca de um certificado, em São Paulo. O caminho é o da fantasia. Laerte contracena com a transexual cubana Phedra D. Córdoba, que vive no Brasil e é tema de outro filme de Cláudia, Phedra, de 2008. Laerte inventa memórias e histórias em um contexto em que não importa se é homem ou mulher, se é verdade ou mentira."

2 comentários:

  1. Portentoso este texto ... super legal ... compartilhando ...

    bjão

    ResponderExcluir
  2. De fato é preciso reconhecer que não existem uma regra em termos de expressão, cada ser humano vai se expressar de acordo com o que sente que faz parte de sua natureza.Temos que parar de pensar ainda que carrinho e azul são coisas masculinas e boneca e rosa femininas. Isso priva muito.E pior que existe o preconceito dentro das classes marginalizadas.O proprio gay repreende aquele que se assume , que se expressa afeminadamente, enfim.Temos muito que aprender e o Laerte é um grande exemplo.

    ResponderExcluir

Para se cadastrar, preencha o formulário na coluna do lado direito do blog.
Seu comentário é bem vindo, desde que:
1. possua nome e link válidos;
2. não contenha cunho racista, discriminatório ou ofensivo a pessoa, grupo de pessoas ou instituições;
3. não contenha cunho de natureza comercial ou propaganda.
Grato pela compreensão.