[Por Bruna Ribeiro, repórter de Veja São Paulo]
(Foto: ThinkStock)

"A polêmica em torno da nomeação do pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e as declarações da cantora Daniela Mercury sobre seu relacionamento com a jornalista Malu Verçosa colocaram o tema da diversidade sexual em evidência.

Na maior parte das escolas da capital, o assunto ainda representa um tabu, segundo o educador Ruy Cezar do Espírito Santo, professor do curso de pedagogia da PUC-SP. Ele foi convidado para falar sobre a questão  em palestra no Congresso e Feira de Educação – Saber, no Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo, de 19 a 21 de setembro.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

As escolas paulistanas sabem lidar com a questão da diversidade sexual?
A educação sexual, infelizmente, pouco avançou por aqui. Se há um tabu para tratar da sexualidade, que dirá da homossexualidade?

Os episódios recentes envolvendo Marco Feliciano e Daniela Mercury deveriam ser discutidos dentro da sala de aula?
Se o assunto surgir, deve ser tratado de forma natural. Isso tem que ser aproveitado para se iniciar um debate e aprofundar o tema.  Fica difícil falar de homossexualidade se a criança ainda não despertou nem para a sexualidade. Certa vez, ao se deparar com uma revista Playboy nas mãos de um garoto, a minha aluna aproveitou o momento e o rebuliço na sala para dar uma aula sobre sexualidade e cultura. Por isso, antes de tudo, é preciso preparar os professores. O problema é que, em geral, eles também não querem falar sobre o assunto, porque isso ainda é difícil.

Na sua opinião, qual a idade ideal para se abordar esse tema com os jovens?
A temática da sexualidade deve se fazer presente a partir do início da adolescência, quando a questão seguramente os atingirá.

Segundo uma pesquisa da Unesco de 2004, quase 40% dos meninos entrevistados não gostariam de ter um colega de classe homossexual. O que o senhor acha desse tipo de resultado? A escola deveria ser um espaço para se combater a homofobia?
A homofobia deverá ser tratada na sequência da conscientização a respeito da sexualidade. Enquanto não chegarmos a esse estágio, a questão da homofobia permanecerá intocável nas sala de aula, o que vai, sim,  gerar um possível bullying do aluno que tiver tal perfil.

Os pais podem ajudar os colégios a lidar melhor com o tema? De que forma?
Os pais conscientes do problema podem e devem ajudar as escolas a caminharem na direção da conscientização da temática da sexualidade. Ocorre que a maioria dos pais estudaram em lugares onde o tema nunca foi tratado. Ao enfrentar o assunto, a maior parte das escolas costuma simplesmente chamar um médico para falar do uso de camisinha, para evitar doenças e gerar filhos não desejados ou ainda de  aborto, quando na verdade o professor é que deve enfrentar a temática."
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Um tema delicado. Não sou pedagogo nem pai, mas, apesar de toda sua experiência, o professor Ruy não estaria sendo precipitado ao declarar que as pessoas devem ser abordadas sobre sexualidade nas escolas somente no começo da adolescência? Não seria um despreparo dos professores?

A experiência do profissional conta muito, mas há um estudo ou um ensaio empírico prévio no Brasil que dê suporte a tais declarações enfáticas? A homossexualidade é espécie do gênero sexualidade. A meu ver, isso poderia ser abordado e dividido nas escolas como o beabá das letras, dos números.

Qualquer criança está sujeita a, despercebida, flagrar os pais numa relação sexual ou ouvi-los numa conversa íntima. Sem falar que a homossexualidade está presente em muitas famílias, através de tios, irmãos mais velhos, primos, etc. As crianças notam a diferença.

Todos fingem que crianças não percebem nada e assim caminha a sexualidade na infância. Sem ter com quem discutir uma realidade que lhe surge de repente, é no mínimo arriscado deixá-las à mercê de suas próprias conclusões baseadas, muitas vezes, em comentários soltos de pais e da tevê - não raros, descuidados e preconceituosos.

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