[Resenha de matéria publicada na revista Isto É, de 2009]

Brett Abrams, historiador americano e arquivista do National Archives and Records Administration, em Washington, antes de lançar, em 2009, o seu livro "Hollywood Bohemians - Trangressive Sexuality and The Selling of the Movieland Dream" (Os Boêmios de Hollywood - Sexualidade Transgressiva e a Venda do Sonho da Terra do Cinema), pesquisou revistas de celebridades, colunas de fofoca, edições inteiras dos jornais de Los Angeles, viu filmes esquecidos que tratavam do cotidiano nos estúdios e leu 70 livros de ficção sobre o tema, todos escritos entre 1915 e 1950.

Num dia de pesquisas na livraria da Academy of Motion Pictures, em Beverly Hills, ele encontrou um álbum de 30 fotos esquecidas que os estúdios Paramount fizeram em 1932 para divulgar o charme da vida de solteiros de Cary Grant e Randolph Scott. Era a prova de que precisava para corroborar a sua controversa tese sobre o lado "gay friendly" da Hollywood dos anos 30.

As fotografias retratam o que circulava nas revistas de fofoca da época: Cary Grand (1904 -1986), solteiro e um dos atores americanos mais cobiçados da época, seria homossexual. Documentam ainda o modo prático pelo qual executivos dos maiores estúdios administravam os boatos sobre a homossexualidade de alguns de seus astros. Ao invés de abafar, glamorizavam e atraiam o público aos seus estilos excêntricos, fomentando a imagem de que a meca do cinema era um lugar cosmopolita, exótico e excitante.

Casal Feliz

As imagens de Grant e Scott, tratados pela imprensa como "o casal feliz", os mostram na mansão em que viveram por 12 anos em Santa Monica, Los Angeles. Na piscina, levantando pesos, fazendo cooper, jogando dama ou jantando à luz de velas, as fotos flagram momentos íntimos dos atores.

Numa delas, Scott aparece sentado à mesa olhando um documento, como se estivesse fazendo contas, enquanto Grant o observa de pé com a mão apoiada no ombro do amigo.
"Aqui estamos, vivendo da forma que achamos melhor como solteiros, numa ótima casa e a um preço relativamente barato", disse Grant a uma revista de fãs da época.

Essa mesma casa, com praia particular no litoral californiano e que ficou conhecida como a "mansão dos solteirões", foi leiloada há sete anos com um lance mínimo de US$ 4 milhões.

Autogozação

A primeira vez que a palavra gay foi ouvida no cinema como sinônimo de homossexual aconteceu no filme "Levada da Breca", há 70 anos. Foi dita numa das cenas mais engraçadas dessa comédia de Howard Hawks pelo ator Cary Grant.

O propósito da famosa cena, com certeza, era a autogozação. O personagem que interpretava, obrigado a sair do banho vestido no extravagante "peignoir" de uma garota, vai atender a porta da casa. Ao vê-lo enfiado num traje feminino, a velhinha que tocara a campainha pergunta-lhe o que significava aquela palhaçada. "Subitamente me transformei em um gay", diz Grant.

'Nenhum vestido francês é tão moderno quanto as calças de Marlene Dietrich'


Nesses anos loucos surgiu até um guia turístico chamado "How to Sin in Hollywood" (Como Pecar em Hollywood), que listava os lugares aonde encontrar os "transgressores" de que trata o livro de Abrams.

O restaurante Brown Derby, por exemplo, era o local preferido da atriz alemã Marlene Dietrich. Causava sensação a sua chegada, sempre vestida de terno, gravata, chapéu e sapatos de amarrar. A estrela de "O Expresso de Xangai" vivia um romance com a roteirista Mercedes de Acosta e adotou o look masculino a contragosto do estúdio.

Mercedes de Acosta era também poetisa e conhecida pelos romances com algumas estrelas. Além de Marlene,  ela teria se relacionado com Greta Garbo, Eva La Gallienne e Tallulah Bankhead
A reação dos executivos foi prática: "Vamos então transformar isso em moda e explorar a imagem de Marlene em trajes masculinos." E a moda pegou.

Dupla das mais requisitadas para a trilha de musicais, Rodgers and Hart, autores dos clássicos "My Funny Valentine" (gravada por Chet Baker) e "The Lady is a Tramp" (sucesso de Frank Sinatra), compuseram para o filme "Hollywood Party" a engraçadíssima canção "I'm one of the Boys". Sua letra diz: "Prefiro o alfaiate de Marlene. Nenhum vestido francês é tão moderno quanto suas calças."

Quando Hollywood era Gay


Para Abrams, a publicidade, os filmes e os livros de ficção sobre o ambiente hollywoodiano nos anos 1920 e 1930 mostravam a complexa e geralmente positiva imagem dos gays, lésbicas e heterossexuais que viviam um casamento aberto.

Quanto à sexualidade do ator, verdade ou mentira, tudo se passava entre quatro paredes. Ele esclarece que Grant, apesar dos 12 anos ao lado de Randolph, se casou com cinco mulheres em intervalos diferentes e nunca assumiu publicamente sequer uma suposta bissexualidade.

Confira mais fotos no slider abaixo.


2 comentários:

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