Nunca uma novela foi tão longe nos questionamentos de um personagem gay enrustido como Amor à Vida. 

Embora saibamos que se trancar no armário não é lá a melhor saída para homossexuais com dificuldades de autoaceitação, devemos considerar a questão do 'time' de cada um, haja vista os bloqueios que a sociedade ainda impõe para os que resolvem assumir antes de estarem psicologicamente preparados -- vivemos num país onde os legisladores ainda perdem tempo e dinheiro público (pagamos seus salários) com projeto de lei no qual se viabiliza uma kafkiana 'cura gay'. 

Isso não significa, claro, que todo gay enrustido se tornará um Félix (Mateus Solano). O psique desse personagem parece ter sido afetado por experiências traumáticas que viveu em família -- ainda não reveladas. Por outro lado, há de se contemplar as autoanálises do vilão que o autor Walcyr Carrasco transmite com maestria através do roteiro do folhetim.

Logo na primeira semana, o personagem confessou à esposa Edith (Bárbara Paz) que é e sempre foi gay.  Durante o papo franco, ele demonstrou coragem e integridade até incompatíveis ao perfil casca grossa, mas serviu de lição a muitos desavisados que batem na tecla da 'opção sexual'.
Sempre me senti diferente, os meninos da escola caçoavam. À medida que fui crescendo, tomei consciência da minha diferença. Falam muito em opção, mas opção é a palavra errada. Eu sou assim porque nasci assim. Mas eu nunca quis ser desse jeito. Batalhei para mudar. Tive namoradas. Nunca frequentei lugares gays, Meu pai é de família libanesa, machão. Eu queria ter uma família para poder dizer para ele: eu sou igual a você. Aí te conheci.
No início de julho irá ao ar outro desabafo de Félix, dessa vez com o 'deliciosamente atrevido' Jaques (Julio Rocha) -- o médico que vem fazendo a cabeça do vilão e promete deliciosas surpresas. 

Além de algumas boas verdades sobre homossexualidade, o diálogo revela que Edith era uma garota de programa e aponta para outro trauma que Félix ainda viverá quando descobrir que seu 'querido' filho na verdade é seu  irmão por parte de pai e seu casamento foi uma armação de família. 

Definitivamente, Félix salgou a Santa Ceia. Confira a seguir.

FÉLIX    — Eu me sentia tímido com as mulheres, já tinha tentado sair com uma garota de programa e... Bem, não tinha conseguido. Mas com a Edith foi diferente. Ela foi tão aberta... Delicada... Me conduziu... E eu também queria tanto ser aceito pelo meu pai, ser considerado normal...
JACQUES    — Mas você é normal...
FÉLIX    — O mundo tem preconceito, sabe disso. Eu me esforcei. Acostumei. Foi assim, mais ou menos como me acostumar com a culinária japonesa. Um gosto adquirido.
JACQUES    — Entendi. Então, você passou a gostar de mulher. A gente quase poderia dizer que você é um ex-gay.
FÉLIX    — Ex-gay não existe. Ex-gay é um cara que mente pra si mesmo, e eu sou um cara franco... Eu me olho no espelho e sei quem eu sou.
JACQUES    — Já amou alguém... Um cara?
FÉLIX    — Teve um cara, que eu chamava de Anjinho. Era maluco por ele, às vezes ainda penso onde está. Mas a minha mulher me pegou... Num encontro com ele, num shopping.
JACQUES    — Mas se era só um shopping...
FÉLIX    — Eu estava dando um Rolex pra ele.
JACQUES    — Puxa, pra dar um Rolex é que você gostava desse Anjinho.
FÉLIX    — Eu sofri, mas me afastei dele. Perdi o contato. Mas eu penso que amor... Eu só poderia ter por um outro... Um outro homem.
JACQUES    — E sua família?
FÉLIX    — Me acostumei, gosto de viver com a Edith. Gosto de ter uma família. Mas é como um gosto adquirido. E, francamente, eu acho que prefiro comida japonesa.
JACQUES    — Desculpa fazer tantas perguntas. Eu fiquei curioso.
FÉLIX    — Eu posso satisfazer a tua curiosidade de outras formas.
JACQUES    — Félix, já te disse, eu preciso de um tempo.
FÉLIX    — Claro. Mas fica sabendo, Jacques, não sou o tipo capaz de esperar eternamente.

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