[Por Bruno Calzavara, Hype Science -- Texto original: The New York Times]


Durante um de seus programas, o famoso apresentador de talk show nos Estados Unidos, David Letterman, fez uma série de perguntas sobre o casamento homossexual para sua plateia – e não nos surpreenderia se você, leitor, alguma vez já tivesse feito esses mesmos questionamentos.
Quem desce as escadas no meio da noite para identificar de onde vem aquele barulho estranho? Quem esquece o aniversário de casamento? Quem se recusa a parar e pedir por informações? E qual pessoa demora uma eternidade para ficar pronta?
 A piada gerou os risos esperados do público, mas foi também um exemplo revelador do esforço que a sociedade em si tem para definir o casamento do mesmo sexo, que eventualmente se torna uma comparação com o casamento heterossexual.

Embora existam muitas semelhanças entre os casamentos gays e héteros, uma década de pesquisas científicas mostra que casais do mesmo sexo também adaptaram a instituição de várias maneiras. E o resultados desses estudos são no mínimo surpreendentes e polêmicos.

O que não causa espanto é a primeira conclusão: de que relacionamentos gays tendem a ser mais igualitários. Isso ocorre justamente porque os casais do mesmo sexo não dividem tarefas domésticas nem se comportam socialmente seguindo um padrão tradicional de gênero.

Pesquisadores também relataram que casais homossexuais possuem menos conflito e mais felicidade em seus relacionamentos. E porque os casais gays muitas vezes não têm o apoio de membros da família, eles tendem a receber mais apoio de uma grande e participativa rede de amigos.

Esses dados vêm logo após decisões do Supremo Tribunal dos Estados Unidos a favor do matrimônio homoafetivo. Por lá, o apoio ao casamento gay é recorde. Segundo dados do jornal “USA Today”, 55% dos estadunidenses são favoráveis às uniões homossexuais, ante 40% contra.

No Brasil, o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo ocorre desde 2011, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que casais gays têm o direito legal às uniões e estabeleceu base jurídica para uma futura legislação sobre os direitos matrimoniais das uniões de mesmo sexo. Em maio deste ano, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou a resolução que obriga todos os cartórios do país a celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em todo o mundo, já são 15 os países que realizam casamentos homossexuais.

Com o assunto tão em voga, uma nova e bem mais extensa pesquisa começa a ser desenvolvida. Recentemente, o Instituto Nacional de Saúde dos EUA aprovou um estudo de 1 milhão de dólares (mais de 2 milhões de reais) a ser feito com casais gays e héteros que foram acompanhados durante 10 anos por pesquisadores da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia.

Um dos maiores estudos de seu tipo, uma investigação começou depois que o estado americano de Vermont legalizou as uniões civis do mesmo sexo, no ano de 2000. O estudo pioneiro teve como foco cerca de mil casais, incluindo casais do mesmo sexo e seus irmãos heterossexuais casados. A inclusão de irmãos permitiu aos pesquisadores comparar semelhanças e diferenças entre os casais homo e heterossexuais da mesma faixa etária, família e origens religiosas.

"Há tanta coisa para aprender com esses casais que tiveram a união civil oficializada em Vermont na década passada", diz uma das autoras da pesquisa e professora de estudos femininos na Universidade de San Diego, Esther Rothblum. “Para a maioria das perguntas que as pessoas me fazem sobre o casamento do mesmo sexo, a minha resposta é: ‘Nós não sabemos ainda’”.

Uma das descobertas mais notáveis dos casais de Vermont ​​foi que, em quase todos os quesitos, os casais do mesmo sexo relataram níveis mais elevados de felicidade em seus relacionamentos do que casais heterossexuais. Casais gay relataram muito menos conflitos e maiores níveis de intimidade em comparação com os héteros. Casais homossexuais se mostraram mais propensos a sentir que podiam confiar em seus parceiros, a se deixar experimentar altos níveis de afeto e ser mais feliz com suas vidas sexuais.

Uma razão, segundo os pesquisadores, para casais do mesmo sexo apresentarem mais satisfação e menos conflito é que os seus relacionamentos tendem a ser menos definidos por papéis tradicionais.

O homem, homo ou heterossexual, sente mais facilidade em se comunicar e se entender com outros homens. Para a mulher, da mesma forma, geralmente é mais fácil a comunicação com outras mulheres. “O que eu gostaria de dizer é que, se os homens são de Marte e as mulheres são de Vênus, então é mais fácil que dois marcianos resolvam um conflito”, exemplifica Rothblum.

Mesmo que casais gays relatem mais felicidade geral em seus relacionamentos, eles também tem mais probabilidade de romperem. Após três anos de acompanhamento, a taxa de separação entre casais gays do estudo, que não estavam em união civil, foi de 9,3%. Casais homossexuais em união civil apresentaram um índice de 3,8%, enquanto apenas 2,7% dos casais heterossexuais se separaram.

Embora isso possa parecer uma contradição, a descoberta sugere que os fatores externos – como a pressão da família, filhos e compromissos financeiros, como uma hipoteca – podem desempenhar um papel maior do que a simples felicidade conjugal na duração dos casamentos heterossexuais. Casais gays normalmente possuem menos relações familiares próximas e naturalmente são menos propensos a ter filhos, o que em tese “facilitaria” uma separação.

Os dados também indicam que o reconhecimento legal, quer se trate de uma união civil ou de um casamento, é uma espécie de cola que pode ajudar os casais, de mesmo sexo ou de gêneros opostos, a manter um relacionamento de longo prazo.

“Quando as coisas não estão indo bem, os casais do mesmo sexo podem achar que é mais fácil simplesmente terminar”, conta Rothblum. “Mas agora, com as leis de casamento cada vez mais igualitárias, casais gays também terão que passar pelo processo legal de separação”.

Outra lição importante do estudo, observa a pesquisadora, é que a duração do relacionamento não é um bom termômetro da felicidade conjugal. “Provavelmente existem muitas pessoas ainda casadas que são extremamente infelizes e outros que são mais rápidos para querer a separação. Só porque casais heterossexuais permanecem juntos por mais tempo não significa que eles estão sempre felizes. Pode ser apenas que eles tenham que lidar com mais razões externas e pressões sociais para ficarem juntos do que os casais do mesmo sexo enfrentam”, conclui.

Um comentário:

  1. Interessante... Temos ganhos e perdas em relação ao casamento hétero, e no fim das contas, acaba que não muda quase nada, exceto o preconceito. Esse ainda vai ficar na nossa cola por um tempo, infelizmente!

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