Imagem: JJ Keyes
Até agora, 70 crimes contra gays foram reportados este ano na cidade, o dobro do ano passado.
Por Isabel de Luca
Em maio deste ano, um sábado à noite, Eugene Lovendusky caminhava com o namorado e um amigo pela Rua 42, entre a Nona e a Décima avenidas, quando foi xingado de “viado” por um dos garotos do grupo que vinha em sua direção. Cofundador de uma organização de defesa dos direitos da comunidade gay em Nova York, ele conta ao GLOBO que replicou instintivamente: “Você não pode falar assim comigo.” Levou um soco no rosto.

Uma semana antes, situação semelhante havia terminado de forma trágica: Mark Carson, 32 anos, funcionário de uma sorveteria da estação Grand Central, levou um tiro enquanto andava de madrugada com um amigo na Rua 8, perto da Sexta Avenida. O assassino - Elliot Morales, 33 anos, preso desde então - se aproximou da dupla gritando frases homofóbicas em pleno West Village, a poucos metros do bar Stonewall Inn, cenário da rebelião que gerou o movimento moderno pelos direitos gays, em 1969.

A onda de violência que curiosamente começou (e concentrou o maior número de exemplos) no mês que antecedeu uma das maiores vitórias do grupo - o respaldo do casamento entre parceiros do mesmo sexo pela Suprema Corte americana, em junho - segue assolando a cidade. Os namorados Peter Nortman, de 53 anos, e Michael Felenchak, de 27, foram cercados por seis homens na saída do cinema em Chelsea na quarta-feira, dia 14. Os agressores fugiram; eles passaram a noite no hospital.

Ataque à luz do dia

Segundo o Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), 70 crimes contra gays foram reportados este ano na cidade até 18 de agosto - o dobro do ano passado, quando na mesma época tinham sido 34 -- no ano todo, o número chegou a 54.

"A comunidade LGBT está ganhando. Estamos vendo vitórias na Suprema Corte, no ambiente de trabalho, nas igrejas, nas eleições e mesmo no campo dos esportes. Isso está sacudindo os padrões heteronormativos. Infelizmente, os indivíduos que são incapazes de se adaptar ou entender as mudanças frequentemente se voltam para a violência. Vimos algo semelhante com o Ato de Direitos Civis, em 1964: a pior violência contra negros ocorreu depois que a legislação foi assinada", diz Lovendusky, que tem 28 anos.

A Queer Rising, instituição comandada pelo ativista, começou a atuar logo que os primeiros casos chegaram às redes sociais: num dos que mais chamaram a atenção, em 5 de maio, o casal Nick Porto e Kevin Atkins passeava de mãos dadas - à luz do dia - perto do Madison Square Garden, quando o primeiro teve o nariz quebrado por um rapaz que andava num bando vestido com camisas de basquete. No dia 16, foi organizado um comício na porta do estádio seguido de uma marcha até o West Village.

Outra marcha - convocada pelo Projeto NYC Antiviolência (AVP, na sigla em inglês) - movimentou o West Village em 20 de maio. Candidata à primeira prefeita mulher e lésbica de Nova York nas eleições de novembro, a presidente do Conselho Municipal, Christine Quinn, caminhou ao lado de Edie Windsor — a viúva de 84 anos foi a autora da ação que acabou garantindo aos casais gays os mesmos direitos dos heterossexuais. Florine Bumpars, tia de Mark Carson, também estava lá.

Em resposta aos ataques, Christine Quinn passou a patrocinar aulas de autodefesa para homossexuais. Os workshops são organizados pelo Centro de Educação Antiviolência e já atraíram cerca de 200 pessoas. Já Brad Hoylman, senador pelo estado de Nova York e abertamente gay, apresentou na semana passada um relatório que, entre outras recomendações, pede uma auditoria nas agências de observância das leis no âmbito municipal e estadual para assegurar que elas estão reportando os crimes de forma correta e treinando policiais para investigá-los.

Morte abala comunidade

Diretora executiva do AVP, que prepara anualmente um relatório com os ataques a gays no país, Sharon Stapel conta que vem constatando um aumento nas ocorrências há tempos.

"Em Nova York, o maior acréscimo foi de 2009 para 2010. Este ano, o número subiu justamente quando lançamos uma campanha para encorajar vítimas a apresentarem queixa à polícia. Recebemos cerca de 500 queixas da comunidade em Nova York por ano, e isso nos diz que as pessoas vivenciam essa violência todos os dias. Isso não é novo para a gente. O que não poderíamos antecipar foi algo como a morte de Mark Carson. Isso realmente impacta a comunidade."

Segundo Sharon, Nova York e Los Angeles — “cidades mais abertas, mais populosas, com mais recursos para que as pessoas prestem queixa” - costumam ter os maiores índices de hostilidade a gays. Em Nova York, apesar de os últimos casos estarem concentrados na parte baixa da cidade, ela chama a atenção para uma onda de ataques no Bronx e no Queens, “sobretudo contra mulheres transexuais negras”. Na última quinta-feira, a transexual Islan Nettles, de 21 anos, morreu num hospital do Harlem, para onde foi levada no sábado ao ser agredida na rua por um menino de 20 anos.

Diretor adjunto da Stonewall Foundation, Jared Lucas faz coro com Sharon:
"Entre as pessoas que conheço, as que nunca sofreram no mínimo bullying são minoria. As estatísticas podem estar começando a acompanhar a realidade. Talvez haja mais gente falando abertamente sobre isso. Mas a verdade é que vivemos sob homofobia todos os dias, e Nova York não está imune a isso.

Eugene Lovendusky prefere olhar para a frente: "Me senti fortalecido após meu ataque, ele reforçou minha determinação. Sou digno de defesa. Todos são dignos de defesa. E se há uma característica invejável na comunidade LGBT é a resiliência. Se você joga um de nós no chão, cinco vão se levantar", orgulha-se.

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