Tchaikovsky, à direita, com o violinista Kotek, suposto amante.
A Rússia há algum tempo fomenta o preconceito contra gays e provoca uma espécie de segregação social entre cidadãos heterossexuais e LGBT.

Após sancionar leis claramente preconceituosas à população LGBT, o presidente da Rússia, Vladimir Puitin, declarou que não a discrimina, mas negou, em outra oportunidade, que existam gays em seu País.

Além de a Rússia ser o único País do mundo a não ter homossexuais, é também o primeiro da história a praticar bullying homofóbico contra um morto. Não um qualquer, mas o célebre Piotr Tchaikovsky (1840-1893).

Para quem passou pelo fardo de ser homossexual no século XIX e ao mesmo tempo sofrer com a rejeição de sua obra artística, é um desacato o que o Ministro da Cultura da Rússia, Medinsky, fez ao negar a homossexualidade do grande compositor russo. 

Segundo a obra biográfica "Pior Tchaikovsky", integralmente baseada em cartas, relatos familiares e documentos que até pouco tempo eram mantidos sob sigilo pelo governo soviético, Petia — como era carinhosamente chamado o compositor — era homossexual e, segundo tais documentos, incapaz de cometer o suicídio que lhe foi atribuído no Ocidente. A biografia conta ainda o catastrófico casamento de fachada do compositor com Antonina Miliukova, aluna do Conservatório de Música apaixonada por ele, mas com quem jamais manteve relações sexuais.

O livro acima é resultado de 30 anos de pesquisa do historiador Alexander Poznansky, hoje chefe da biblioteca de línguas eslavas da Universidade de Yale, nos EUA.  

Na página 81, Poznansky reproduz um trecho das memórias inéditas de Modest, irmão do compositor.
Petia tinha muitas outras paixões, às quais se entregava com todo o ardor de uma natureza intensa e emocional. Mulheres, entretanto, nunca foram objeto de tais paixões: elas incutiam repugnância. 
Através do discurso de um familiar querido, o autor da biografia começa a falar sobre sua homossexualidade.

— Tchaikovsky tinha uma relação de enorme dependência com sua mecenas. Ela não era religiosa, mas moralista. Então, com medo de pôr tudo a perder, ele nunca assumiu sua condição de gay — conta o editor George Ermakoff. — Depois de sua morte, foi a vez de a família ocultar os registros. Mais tarde, o governo soviético fez o mesmo.

Segundo revela a pesquisa de Poznansky, Petia tinha uma tática para se manter no armário: trocava o gênero das palavras nas cartas que enviava a amigos e parentes. Assim, falava, por exemplo, sobre encontros voluptuosos com “jovens chapeleiras”.

O livro esmiúça a proximidade entre o compositor e um de seus últimos amantes, o lacaio Alexei Sofronov, a quem Tchaikovsky se referia pelo apelido carinhoso “Aliosha”. Foi para ele, por exemplo, que ficou a casa que hoje é o Museu Klin, dedicado ao compositor.

Antonina e Tchaikovsky durante a sua lua de mel, em 1877
Em 1877, Tchaikovsky surpreendeu os amigos ao anunciar seu casamento com a jovem Antonina, uma das estudantes de música que flertavam com ele durante as aulas no conservatório. Após se casar, ele tenta explicar ao irmão o ocorrido, por carta:
"Agora estou passando por um período muito crítico em minha vida. Eu vou entrar em mais detalhes mais tarde, mas por agora vou simplesmente dizer-lhe: eu decidi me casar. É inevitável. Eu tenho que fazer isso não apenas para mim, mas por você, Modest, e por todos aqueles que amo. (...) Como é terrível pensar que aqueles que me amam possam, por vezes, sentir vergonha de mim. Em suma, eu procuro casamento ou algum tipo de envolvimento público com uma mulher, para calar a boca de várias criaturas desprezíveis cujas opiniões não significam nada para mim, mas que estão em posição de causar sofrimento aos que estão perto de mim."
Ficaram juntos por 15 dias. Nesse tempo, Tchaikovsky não manteve relações sexuais com a esposa. — conta Ermakoff. — Depois ele foi passar três meses com a irmã na Ucrânia e quando voltou arranjou uma longa viagem por diversas cidades europeias. De longe, tentou o divórcio, mas Antonina nunca aceitou as altas quantias propostas a ela pela mecenas dele.

Ilyich Tchaikovsky, irmão do compositor.
Em mais uma carta confidencial ao irmão, Tchaikovski reconhece o equívoco do casamento de faxada:
"Somente agora, após meu casamento, começo a entender que nada é mais inútil do que querer ser o que não somos."
Petia deve estar hoje se revirando no túmulo. Em sua época, tanto ele sonhou com a oportunidade de livremente conciliar sua carreira artística com sua orientação sexual - sem prejuízo do reconhecimento de seu trabalho -, mas a Rússia lhe exclui essa liberdade. A ironia é que o seu desejo seria perfeitamente possível na maioria dos países do mundo se ele fosse dessa geração. 

A Rússia pode considerar que os registros históricos de Tchaikovski são uma propaganda gay.

Via OGlobo
Imagens Wikipedia

Um comentário:

  1. Chega a ser ridículo tudo isto né? E pensar que em pelo 2013 as coisas nada mudaram por lá ...

    ResponderExcluir

Para se cadastrar, preencha o formulário na coluna do lado direito do blog.
Seu comentário é bem vindo, desde que:
1. possua nome e link válidos;
2. não contenha cunho racista, discriminatório ou ofensivo a pessoa, grupo de pessoas ou instituições;
3. não contenha cunho de natureza comercial ou propaganda.
Grato pela compreensão.