Por Silvana Macedo


Ninguém é gay por escolha!

Esta semana recebi em meu consultório um rapaz de 19 anos que queria se curar de sua homossexualidade. Ele dizia que se sentia desnorteado em relação a seus desejos, que já havia conversado com seus pais e o pastor de sua igreja, e que eles chegaram a conclusão que ele deveria procurar ajuda profissional para se livrar desse vício danoso que é o de desejar outros homens. Mesmo estarrecida com o que ouvia, conversei calmamente com ele a respeito e pedi que seus pais comparecessem na próxima consulta, que foi ontem. Mas, para meu grande espanto, o pastor foi junto.

Este pastor merecia um artigo à parte ou até um tratado inteiro. Ele é certamente uma das figuras mais grotescas e ignorantes que eu já conheci. Ele já começou afirmando que tinha certeza que não era encosto ou demônios atuando sobre a personalidade do rapaz porque já havia feitos várias orações e tinha certeza que desde então o rapaz se mantinha casto e sem pecar desejando homens. Mesmo querendo jogar o pastor pela janela, tive que ter paciência, já que os pais do rapaz nem abriam a boca, deixando que o pastor manipulasse suas vidas e vontades.

Após mais de 40 minutos de discussão inútil entre fé e ciência, deixei bem claro para todos que a ciência, e principalmente a Psicologia, não entende a homossexualidade como doença. A homossexualidade é uma condição do ser humano que por alguma razão acontece com uns e não acontece com outros. Não se toma vacina para deixar de ser gay ou se faz terapia para passar a gostar do sexo oposto. Afirmei inutilmente ao pastor que ninguém é gay por escolha própria. A pessoa nasce gay e pronto.

O pastor ainda afirmava que se fosse feita uma terapia, onde acostumássemos o rapaz a gostar de mulheres, logo ele passaria a gostar também, ou então se acostumaria a se relacionar com o sexo oposto. Eu ainda lhe disse que assim, vivendo nesta condição, ele poderia ser infeliz. Ele então disse que o importante era que Deus ficaria feliz, e Deus ficando feliz era isto que importava e nada mais.

A consulta, que durou quase uma hora e meia, acabou, eles foram embora e o pastor decidiu que o rapaz deveria procurar outra terapeuta e não eu. Antes que todos saíssem eu disse ao rapaz que não se violentasse e fizesse aquilo que sua natureza lhe pedia e não o que crenças ou sacerdotes fundamentalistas determinam. Expliquei ainda que mesmo que ele insistisse em ter um comportamento hétero e até casasse com uma mulher e tivesse filhos, em algum momento isto poderia aflorar de forma a ele não conseguir mais controlar seus desejos e levar seu casamento até a acabar. Fiquei triste pelo rapaz, que está perdido no mundo e blindado para sua sexualidade por medos, crenças e ignorâncias sem limites.

Cabe ainda uma pergunta: até quando coisas desse tipo, preconceitos imbecis e debiloides continuaram tão presentes em nosso sociedade. Estes dias mesmo o casamento entre homossexuais não foi aprovado na Croácia, obrigando os homossexuais de lá a não terem suas cidadanias de forma plena. Aqui no Brasil temos o deputado federal Marco Feliciano promovendo verdadeiros absurdos, sem que nenhum outro político ou partido faça alguma coisa temendo perder o voto dos evangélicos. O que estes políticos (praticamente todos se dizem héteros) não sabem é um país não é feito do voto de evangélicos e sim de cidadãos.

*Silvana Macedo é terapeuta de casais e mora atualmente na cidade de São Paulo.

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