A matéria original, escrita por Angela Boldrini, Folha de São Paulo, começa narrando o enredo do livro "A Princesa e a Costureira", obra da escritora e psicóloga Janaína Leslão.

Em resumo, a princesa Cíntia é presa na torre do palácio onde mora após revelar à família [real] que o amor de sua vida é a pobre costureira Isthar, que fora contratada para fazer seu vestido de casamento com o príncipe Febo, a quem havia sido prometida.

A partir de então, Isthar se torna a heroína do conto de fadas que luta pelo amor de Cíntia.

Escrito para crianças com mais de 10 anos, o conto de fadas é o primeiro do Brasil com protagonistas lésbicas. Não fosse o fato de Cíntia ser uma princesa negra - raridade nesse tipo de literatura infantil -, a estória seria comum se Isthar fosse um homem plebeu.

Mas o diferente faz toda a diferença. 

Crianças se tornam adolescentes, descobrem a sexualidade, viram adultas. Gays ou não, as que têm acesso a leituras isentas de preconceito hoje, lembrarão no futuro da dignidade do amor entre pessoas, da hombridade da luta de Isthar e Cíntia, por exemplo.

Aos 10 anos de idade, o filho repreendido pelo pais porque lhes conta sobre "A Princesa e a Costureira" que viu na casa da amiguinha, de 11, tem boas chances de se tornar homofóbico - gay ou não. Amanhã, a amiguinha - gay ou não - terá chances concretas de ser adulta tolerante e sem rancor às diferenças. 

Esse é o melhor mundo. Chega de adolescentes problemáticos que sofrem incontáveis crises depressivas porque se descobrem gays. 

Os pais têm parcela de culpa tanto na felicidade quanto na infelicidade dos filhos. O engraçado é que só assumem a responsabilidade quando os filhos são bem-sucedidos.

O livro será lançado em dezembro. Janaína conta que decidiu escrevê-lo em 2009, depois de perceber que não havia material para que os pequenos tivessem contato com o assunto. Mas só conseguiu publicar agora. "Procurei umas 20 editoras, mas só recebi recusas", conta. "Sou uma escritora desconhecida e a história é ousada; era encarada como difícil."

Quando estava prestes a desistir, a editora Metanoia topou a empreitada. Para financiar as ilustrações, iniciou uma campanha no site de "crowdfunding" Catarse. Arrecadou mais de R$ 11 mil.

Usou R$4.500 para fazer os desenhos e diz que irá gastar o resto na produção de um novo livro, "Joana Princesa", sobre transexualidade na infância, que pretende lançar em 2016.

"A população majoritária, hétero e cis [quem se identifica com o gênero que lhe é designado ao nascer] é representada desde sempre nos contos, e é bom que seja, porque é legal ter algo para se identificar", diz. "Mas por que não dar oportunidade para aqueles que nunca tiveram essa identificação? Esse é meu norte criativo."

Ela conta que escolheu que Cíntia e a família real fosse toda negra porque "os negros não estão acostumados a se verem representados como reis, rainhas, princesas."

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