Por Paulo Cavalcante
Café de Ideias
[O texto contém alguns resumos do original]

A TV e o cinema têm sido um grande campo de propagação da luta contra o preconceito à comunidade LGBT. É cada vez maior o seu destaque nos filmes e séries, construindo grandes histórias através de papéis coadjuvantes de destaque e até mesmo surgindo como protagonistas, como é o caso da australiana “Please Like Me” e do longa “Moonlight”.

No que se refere ao cinema queer e a TV inclusiva, 2016 foi um ano de excelentes produções para um público cada vez mais crescente, receptivo e “fora do armário”. Diante disso, Cavalcante selecionou os melhores filmes e séries LGBT lançados pelo mundo em 2016 e que ganharam o apreço do público e da crítica especializada. Confira a seguir.

Moonlight (2016)


Um dos principais concorrentes a estatueta de Melhor Filme do Oscar 2017, Moonlight conta a história de Black (Trevante Rhodes), que trilha uma jornada de autoconhecimento ao mesmo tempo que tenta escapar do caminho para criminalidade e do mundo das drogas em Miami. 

O rapaz encontra o amor onde menos espera, sonhando com um futuro promissor. Para a crítica, o diretor Barry Jenkins transformou “uma luta pesada de um menino negro com a sua sexualidade em uma carta de amor poética para sua auto-aceitação”.


Kiki (2016)


O documentário Kiki retrata a vida de jovens negros da periferia de Nova York que organizam concursos onde disputam a atenção de jurados através de figurinos exóticos e caprichados. A intenção é exaltar a importância dos desses bailes conhecidos como “Kiki” para grupos de homossexuais e transexuais que diariamente lidam com a rejeição dos familiares e com o preconceito.

“‘Kiki’ é uma resposta muito necessária de 2016 para “Paris Is Burning” de 1991, para a qual a cineasta Jennie Livingston (que é branca) foi acusada de voyeurismo cultural. Com  [a roteirista] Twiggy Pucci Garçon no comendo, ‘Kiki’ surge com toda a fabulosidade de ‘Paris is Burning’, mas tem o benefício adicional de autenticidade”, sugere o IndieWire.

A Criada (The Handmaiden, 2016)


O longa se passa durante a ocupação japonesa na Coreia do Sul na década de 1930, quando a jovem Sooke (Kim Tae-ri) planeja junto com um vigarista dar um golpe numa herdeira nipônica, Hideko (Kim Min-Hee), para quem trabalha. Porém, o plano de tomar seu lugar, roubar todo seu dinheiro e prendê-la num sanatório parece começar a se desfazer quando ela começa a compreender as motivações da vítima. 

Para a crítica, A Criada bate de frente com “Azul é a cor mais Quente” quanto as relações homoafetivas e o considera como um dos filmes “visualmente mais deslumbrantes e excitantes do ano”.

Spa Night (2016)


O longa americano (com elenco de descendência coreana) ganhou a crítica quando foi apresentado no Festival de Sundance. Com sua sensualidade reprimida, foi agraciado pelo prêmio especial do júri por seu desempenho revolucionário.

A trama de Spa Night foca em David Cho (Joe Seo), jovem coreano-americano em transição da juventude, onde descobre os prazeres dessa fase, ao mesmo tempo que concilia com as obrigações de estar se tornando um adulto. Esse equilíbrio se desfaz quando David é obrigado a procurar um emprego e ele acaba se direcionando para um mundo obscuro da vida gay em spas coreanos localizados em Los Angeles.

High Maintenance (2016)


Estreou inicialmente como websérie, mas logo ganhou as telinhas pela HBO. A série gira em torno do The Guy, personagem do também co-criador Ben Sinclair, que trabalha como entregador de maconha, a única droga capaz de aliviar as neuroses desenvolvidas pelos moradores de Nova York. 

Segundo a crítica, “Ben Sinclair e Katja Blichfeld [os co-criadores da série] traduziram com sucesso sua incrível capacidade de contar histórias humanas que são parte engraçadas, tristes e totalmente inesperadas”. Mas por que ela figura numa lista de melhores filmes e séries LGBT?

A atração é um poço de representatividade gay. Sua primeira temporada contou com dois personagens bem representativos: Max, interpretado por Max Jenkins, logo no primeiro episódio se relaciona com um viciado em metanfetamina em tratamento, interpretado pelo astro do pornô Colby Keller. Ambos protagonizaram uma cena de sexo.

No mesmo episódio participa o ator Christopher Caldwell, mais conhecido como a drag queen Bob The Drag Queen, vencedora da oitava temporada do reality show RuPaul’s Drag Race; e ainda o personagem Patrick, vivido por Michael Cyril Creighton, que é um agorafóbico que alimenta uma paixão não correspondida pelo The Guy.

Transparent (2014)


A série estrelada por Jeffrey Tambor retrata a história de uma família com preocupantes problemas de relacionamento que vê a vida dar uma reviravolta com a chocante notícia de que o patriarca, Mort, decide fazer uma reunião para se assumir como transgênero. 

Transparent foi o primeiro sucesso do serviço de streaming da Amazon, concorrente da Netflix. Elogiada pela crítica, é vencedora de 2 Globo de Ouro e 8 Emmy Awards. Com muita sensibilidade e cenas cômicas, o seriado aborda as questões que envolvem a vida dos LGBTs da forma mais simples possível, sem deixar a seriedade de lado.

Além de ser bem aceita pela crítica e ter muitos fãs pela internet, onde a série é exibida, “Transparent” ainda e´responsável por empregar pessoas trans, que comumente são excluídas do meio televisivo e de Hollywood. 

Merlí (2015)


A série gira em torno de um professor de filosofia homônimo que, usando alguns métodos pouco ortodoxos, incentiva seus alunos a pensar livremente, dividindo as opiniões de alunos, professores e famílias. 

Com uma trama que usa a filosofia como base, Merlí é uma produção que discute diversas questões socioculturais contemporâneas entre elas o que diz respeito ao ciclo vicioso de opressões.

Em um dos núcleos, Bruno, personagem gay em conflito com sua sexualidade, desperta uma paixão pelo seu colega Pol, mas em meio a uma crise identitária descarrega todos os seus preconceitos internos em seu professor de literatura, Santi, que é gordo. Ao longo da história, no entanto, revê seus conceitos. Uma grata surpresa é o episódio centrado nas ideias da filósofa Judith Butler, uma das principais teóricas do feminismo e da teoria queer, em que se coloca em destaque a história de uma professora transexual que sofre discriminação por parte dos alunos e professores. 

Merlí é uma produção de Catalunya, que a cada ano tem surpreendido mais com a originalidade de suas narrativas, cujo marco inicial foi a vencedora do Emmy Internacional, Polseres Vermelles. Atualmente a série se encontra inclusa no catálogo da Netflix sob o selo de produção original.

Please Like Me (2013)


Josh foi largado pela namorada por ser gay. Com seus amigos, ele vai descobrindo como entender os preconceitos que possui. A trama mostra como a autoestima é influente em todos os personagens, aborda a sexualidade com naturalidade, além de discutir temas como as decisões que todos temos de tomar e as influências e formas de pensar que nos influenciam.

A série se aprofunda em conflitos internos, não só do protagonista, como também dos personagens a seu redor, sobretudo da sua mãe, Rose, que sofre de depressão. Com um roteiro cheio de curvas dramáticas, vemos os personagens irem do riso ao choro em meio a trajetórias de autoaceitação e amadurecimento, algo que se torna mais marcante a cada temporada. 

Em produção desde 2013, Please Like Me é uma série extremamente subestimada, mas que agora está tendo a chance de se dar ao conhecimento de um público mais expansivo, após ser incluída no catálogo global da Netflix.

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