Numa publicação do Jornal do Brasil, 1971, o ator inglês Dirk Bogarde (01/01/1911 a 23/03/1971) fala sobre a repercussão do longa Victim (Meu Passado Me Condena) em sua imagem e carreira. Primeiro filme da língua inglesa a mencionar a palavra "homossexual".


Victim estreou mundialmente em agosto de 1961. Direção de Basil Dearden, é um suspense sobre um advogado que defende as vítimas da rede de chantagistas cujo alvo preferencial são os gays da alta sociedade londrina.


Divisor de águas na carreira

Reservado em sua vida privada, Bogarde se incomodava com o fato de a imprensa se interessar mais por sua vida pessoal, principalmente após o filme que despertou curiosidade geral sobre sua orientação sexual.

"Colunistas, repórteres, fãs, sempre estiveram interessados apenas na minha vida privada; nunca ninguém se preocupou em focar no meu trabalho".

A oportunidade para fazer o filme surgiu através do amigo e diretor Basil Dearden: "Estou com um roteiro que ninguém quer filmar. Tentei atores mais famosos que você porque esse é um tema controvertido. Queria um grande nome para promovê-lo, mas ninguém quer aceitar."

Basil queria preparar a opinião pública inglesa para a aprovação de uma nova legislação sobre a homossexualidade que na época já era bastante debatida - a lei que legalizou a homossexualidade na Inglaterra é de 1967.

"Li o roteiro e pensei: isso tem uma pegada de protesto. Esse roteiro tem o que dizer, ao invés de ser um mero passatempo como eu venho fazendo. Seria importante, nos meus 40 anos de idade, contribuir de alguma forma se isso não parecer pretensioso para o bem-estar de algumas pessoas. Meu protesto não seria demonstrado em passeatas na Grosvenor Square - embora eu respeite muito as pessoas que as fazem. Meu protesto tem de ser através do meu meio de comunicação: o cinema."  

"Fiz um filme que destruiu a imagem que o público tinha de mim: o meu perfil esquerdo. Naquela época eu recebia cerca de cinco mil cartas por semana. Depois de Victim, nada.  E o mais interessante é que a correspondência não terminou em virtude do personagem, um homossexual chantageado, mas porque representei um homem de 45 anos de cabelos grisalhos. O jovem galã e romântico estava morto e enterrado."

Os fãs detestados

A visão cinematográfica tornou-se realidade. É fato razoavelmente conhecido a solidão de Dirk Bogarde, o distanciamento das pessoas, o ar remoto, olhar pomposo.

"Não senti falta das cartas de fãs. Eu as odeio, detesto. É preciso entender o tipo de correspondência que eu recebia. Apenas uma pequena parte, mínima, vinha de pessoas que se importavam com meu trabalho.  O resto poderia ser dividido entre crianças desejando meu autógrafo, adolescentes que adoravam meu perfil esquerdo e a maioria e mais terrorizante, as obscenas. Tanta sordidez que é impossível narrar."

O retiro e a solidão

Aos 50 anos, completados em 1971, ele não admitia a opinião de que era um ser solitário.

"Isso se refletia na multidão que me perseguia. Me agarravam nas ruas, tentavam arrancar minhas camisas, minhas calças, sacudiam garrafinhas em meu rosto, gritando que era ácido. Aquelas terríveis garrafinhas."


"Não aceito que me achem solitário apenas porque não tenho mulher e filhos. Isto não quer dizer nada. As pessoas são gregárias ou não. Se você gostar das pessoas elas gostarão de você. Durante as filmagens de Justine, por exemplo, meu hotel ficava a uma hora e meia da cidade onde estava toda a equipe. E mesmo assim não passei uma noite sozinho. As pessoas vinham de Túnis para conversar comigo e tínhamos maravilhosas discussões. Ah, sim, também adotei dois gatos: George e Nelly."

"No entanto, admito que gostaria de ter uma família. Gostaria de poder dizer: esse é meu filho. Mas, sabe, eu nunca estive realmente preparado para isso."


"Eu sabia do meu futuro desde quando tinha dezesseis anos e desde os cinco queria ser ator. Aos 20, tive a certeza e consciência de que minha escolha foi profundamente acertada."

Assista ao filme Victim (Meu Passado Me Condena) no canal Identidade G.

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