O que ninguém escreveu sobre "Moonlight", do Oscar 2017


Considerações de um blogueiro que foi cativado pelo conteúdo do filme indicado ao Oscar desse ano

O título da postagem parece pretensioso, mas é só uma daquelas técnicas óbvias ensinadas por quem vende ilusões digitais para atrair leitores (não custa tentar). Mas vamos ao filme.

Temos hoje tantos meios eletrônicos (pagos e gratuitos) para assistir filmes que corremos o risco de banalizá-los. Mas "Moonlight" não passa despercebido.


A começar pela capa ou o cartaz original. É hipnotizante. Em um olhar rápido, parece foto de um homem com alguns efeitos de cores secas, mas o "cara da foto" é a união dos três atores que interpretam Chiron - apelidado de Black ou Little -, personagem central da trama.

Os atores são um parágrafo à parte. Fica claro ao espectador que os representantes de Chiron foram instruídos a uma interpretação densa e amargurada. O personagem não sorri.


Por ordem de chegada, Alex Hibbert (foto acima, o da esquerda) é o intérprete de Chiron ainda criança. O garoto é um daqueles atores que deixam a gente pensando se foram selecionados para o papel porque vivem uma realidade parecida. É impressionante sua atuação. Seu olhar é impactante e castigado e seu trabalho é comedido, mas é controlado e categórico.

Na adolescência, quem vive Chiron é o ator Ashton Sanders (o da direita). O trabalho do ator toca, emociona. Tem aquela aura endurecida e angustiada, mas a atuação é comparativamente um pouco exagerada. Talvez por causa da idade do personagem.


O ex-atleta Trevante Rhodes (acima) chega na fase adulta, quando Chiron se torna um homem que quer esconder qualquer vestígio da fraqueza e vulnerabilidade vividas nas fases anteriores. Rhodes arrasa. Seu trabalho coordena mais com a interpretação do pequeno Alex Hibbert.

Numa das cenas essenciais do filme, quando Chiron revê alguém que o marcou na adolescência, Rhodes transmite bem ao espectador a ansiedade e nervosismo escondidos em quem tenta mostrar uma imagem oposta, de homem forte e vitorioso.

Enredo

O filme é um drama queer, mas a pegada é universal. 

Chiron foi criado por Paula, uma mãe solteira (interpretação digna de Oscar de Naomie Harris) em um bairro pobre e problemático de Miami. Nas duas primeiras fase, o garoto sofre bullying dos colegas de escola que o chamam de "faggy" (bicha) por causa de seu jeito reservado e solitário.

Para piorar, Paula, a única pessoa com quem Little podia partilhar a solidão, contar seus sonhos ou extravasar a angústia pela busca de aceitação (raça e sexualidade), é viciada em drogas. Isso faz o menino se fechar mais em sua bolha. O personagem é quase um vulcão preste a irromper.


O garoto conhece alguém que lhe dá força para seguir adiante. Juan é um homem que se depara com a criança perdida que ele próprio foi um dia, motivo que o leva a acolher Little em sua casa. Lá, apresenta o menino à esposa que se torna uma espécie de segunda mãe. O casal hospitaleiro é vivido por Mahershala Ali (indicado à estatueta pelo papel) e (surpresa!) a cantora Janelle Monáe.


O filme é do diretor Barry Jenkins e aparentemente tem uma produção barata. O tema central pode ser confundido, pois aborda a solidão dos incompreendidos - por esse prima, um problema social -, pela sexualidade e etnia (o filme só tem personagens negros), mas tudo gira em torno do autoconhecimento.

Para finalizar, vale destacar uma pequena passagem, quando Juan responde à pergunta de Chiron: "O que significa bicha ("faggy")?"
"Bicha é a palavra que alguém usa quando pretende ofender os gays..."
Assista ao trailer.


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