Será que só quem derrama sangue é capaz de destruir vidas?


Por Ruth Manus

Experimente abrir o Google, escrever “gay” e dar uma busca de notícias. A sensação é a de uma viagem no tempo. Parece mesmo que somos remetidos a resultados da idade média, é realmente inacreditável.

Só nesse início de ano temos as seguintes notícias: o prefeito de uma cidade em Rondônia propôs que todas as páginas de livros didáticos que mencionam famílias homoafetivas fossem retiradas dos mesmos; um casal gay que recebeu uma carta num condomínio do Rio de Janeiro dizendo que gente “de cor e afeminada” não estava à altura de morar naquele local e, com dor e destaque, o caso da mãe que matou o filho de 17 anos a facadas e depois incinerou o corpo, por não aceitar que ele fosse gay.

É interessante notar que os três casos têm um traço comum muito bem delineado: a necessidade de tornar a homoafetividade invisível. Num caso arrancam-se as páginas, no outro tenta-se retirar o casal do condomínio e no terceiro elimina-se alguém pelo simples fato de ser gay.

Ou seja, não se trataria apenas de evitar que dois homens (ou duas mulheres) se envolvam ou se amem, trata-se de silenciar suas vozes de forma definitiva, seja através do seu desaparecimento no material de ensino, da sua exclusão da vida em sociedade ou da sua morte. O objetivo é exatamente o mesmo.

Equiparam-se a estas condutas, a de pedir para um gay que ele não se mostre gay no ambiente de trabalho ou a de achar que casais homoafetivos não devam se abraçar ou se beijar em público. É tudo essencialmente a mesma coisa: o desejo de torná-los invisíveis. Será que é realmente diferente dizer “vocês não podem existir” e “vocês só podem existir onde ninguém veja”?

A questão é: será que a única forma de subtrair a vida de alguém é através da morte? Ou será que cada uma dessas pessoas que tenta confinar a vida de um gay aos submundos da invisibilidade também não tem as mãos sujas de um sangue igualmente invisível?

Porque sim, eles sangram. Sangram a cada vez que querem dar um beijo e não podem, a cada vez que se sabem observados por causa de um abraço, a cada vez que precisam disfarçar as mãos dadas, a cada vez que precisam conter suas reações para não serem condenados por alguém que sequer tem o direito de julgá-los.

São dois lados muito claros para se definir onde se quer jogar: o lado do amor e o lado do ódio, simples assim. O lado das mãos limpas e das mãos sujas. O lado sem sangue e o lado com sangue, visível ou invisível. É uma questão de posicionamento.

E é uma questão de se perguntar: quantas frações de vida você já suprimiu com seu discurso e suas mãos supostamente tão limpas?

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