"Meu querido menino, não há nada mais que eu deseje nessa vida do que ter você constantemente comigo."

O trecho acima é de uma declaração de um homem a outro homem. Seria apenas singelo se não fizesse parte de uma carta escrita em 1939. E seria comum se naquela época os amantes gays não costumassem destruir suas cartas de amor após lerem seu conteúdo.

Décadas e décadas se passaram para essas cartas saírem literalmente dos armários e ganharem o mundo. Um flagrante de homossexualidade que, se hoje em dia ainda é considerada crime em quase oitenta países, há 70 anos era uma vergonha irreparável e, pior, um crime em todo o planeta.


A última descoberta tem tanto conteúdo que dá para escrever um livro daqueles de comer com os olhos. Um maço de aproximadamente 300 cartas foi adquirido em um leilão na Inglaterra por apenas mil libras (cerca de R$ 3.850,00). Ninguém, nem o colecionador no primeiro momento de sua aquisição, sabia que as cartas haviam sido escritas por dois homens apaixonados.
"O valor dessas letras reside no fato de que a maioria das cartas de amor de homossexuais na época era queimada. Se fossem encontradas elas poderiam ser usadas como evidências de um crime", explicou a Metro o comprador, Mark Hignett, de 62 anos.
As cartas revelam o amor vivido  em plena II Guerra Mundial pelo jovem soldado Gilbert Bradley e seu namorado Gordon Bradley, entre 1939 e 1944. Eles assinavam com a inicial "G" para despistar, caso as correspondências chegassem em mãos erradas.


Bradley estava em treinamento militar e era muito apaixonado por Gordon, diz Hignett. O medo existia de fato porque na época da guerra os soldados podiam ser baleados se engajassem em atividades consideradas homossexuais.

Confira essas amostras da coleção:
"Quarta-feira, 24 de janeiro de 1939
My darling,
... Fico acordado a noite toda à espera do carteiro no início da manhã. Depois, quando ele não traz nada de você, eu fico uma pilha de nervos...
Todo meu amor para sempre
G."

 "Meu querido menino,
Não há nada que eu deseje mais nessa vida do que ter você comigo constantemente...
... Eu posso ver, ou imaginar que posso ver, qual seria a reação de seus pais... O resto do mundo não tem ideia do que nosso amor representa - eles não sabem que isso é amor..."
Eles também sonharam com o futuro, especialmente de se mudarem para Califórnia após o fim da guerra e construírem a vida juntos.
"1º de fevereiro de 1941 - K. C. Regimento Gloucester, Priors Road, Cheltenham
Meu querido menino,
Durante anos eu martelei o pensamento de que nenhum amor poderia durar uma vida ...
Querido, eu quero que você mergulhe em sua própria mente e olhe para o futuro agora.
Imagine quando a guerra acabar e estivermos vivendo juntos os melhores anos de nossas vidas... .
De seu G."
Em outra parte, Bradley confessa sua relutância em servir o exército. Sem sucesso, ele fingiu ter epilepsia para evitar ser recrutado. Acabou escalado para servir em Oswestry (Reino Unido) onde treinou como artilheiro antiaéreo.

Os documentos revelam ainda que Bradley se apaixonou por Gordon Bowsher antes de ser recrutado. Os dois se conheceram em 1938 numa festa quando Bowsher namorava o sobrinho de Bradley.

Foi essa informação que despertou mais o interesse de Hignett, que equipara a sua experiência na leitura dessas cartas com a de ler um ótimo livro: "Eu tinha que continuar comprando as cartas para descobrir o que acontecia depois".


Hignett confirma que haverá mesmo um livro. Os preparativos estão à caminho e o livro acompanhará a exibição das cartas no Oswestry Town Museum.

Mais uma história de amor entre soldados

Outra preciosidade, uma carta de despedida escrita por um soldado para outro soldado, ambos da II Guerra, foi notícia em todo mundo após seu registro na web em 2013. 

Muita gente viajou até uma praia africana, numa noite estrelada, quando leu o que esse soldado escreveu sobre a sua despedida.

A carta foi publicada pela primeira vez em setembro de 1961, pela "ONE,Inc" uma das primeiras revistas destinadas ao público gay que começou suas publicações ainda em 1952.

Leia esse resumo e mais abaixo tem a imagem da carta na íntegra.
"Escrevo isto em memória do aniversário de 27 de outubro de 1943, quando eu o ouvi cantar pela primeira vez na da África do Norte. Essa música traz lembranças dos momentos mais felizes da minha vida. Memórias do show de um soldado das tropas americanas, onde cortinas eram feitas de tecido de dirigível, as luminárias de latas de chocolates, os ensaios começavam a tarde e iam até tarde da noite, e um rapaz bonito cantava com uma maravilhosa voz de tenor... Lembro da felicidade de quando nos disseram que íamos para casa e da tristeza quando soubemos que não iríamos juntos. A despedida em uma praia isolada sob o céu repleto de estrelas numa noite africana, e as lágrimas que não paravam de cair enquanto eu me apoiava numa parede do cais e assistia ao seu comboio desaparecer no horizonte... "
[...]
Prometemos que estaríamos juntos “de volta pra casa”, mas o destino sabia mais que a gente. Você nunca chegou. Eu espero, Dave, onde quer que esteja, que essas lembranças sejam tão preciosas para você como são para mim.
Boa noite e durma bem, meu amor.
Brian Keith.”😰😭

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