Existe impedimento para o batismo dos filhos de pais homossexuais? Qual o posicionamento da Igreja Católica?

Vários sites brasileiros noticiaram nos últimos dias a dificuldade do casal gay Tony Reis e David Harrad, para batizar os seus três filhos Alyson,16, Jéssica,14, e Filipe, 12 [foto acima - reprodução Facebook].

O casal, que é ativista LGBT, precisou percorrer quatro igrejas de Curitiba, até conseguir realizar o desejo religioso da família.

De acordo com a publicação do site UOL, "depois que quatro igrejas da cidade se recusaram a fazer a cerimônia, Reis buscou o arcebispo da cidade, Dom José Antonio Peruzzo, que aceitou batizar os três."

A cerimônia aconteceu no dia 23, na catedral Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, com o padre Elio Dall’Agnol.

Ao ler essa matéria, a gente tende a imaginar que nenhuma igreja deveria negar um pedido dessa natureza, afinal, além do fato de que essas crianças não têm a ver com a orientação sexual dos pais, a religião teoricamente deve buscar fieis para orientá-los, segundo a sua ótica, à palavra de Deus.

A família com o padre Elio Dall’Agnol que batizou os três filhos. Reprodução Facebook

Mas não é simples assim. 

Primeiro de tudo, a pergunta com a qual iniciamos essa matéria deve ser refeita para abranger o batismo de filhos de quaisquer pais, sejam homoafetivos, heteroafetivos, pais solteiros ou mães solteiras, que não casaram no religioso.

Então, a pergunta é: casais que não se unem em matrimônio perante Deus, o chamado 'casamento religioso', podem batizar seus filhos na Igreja?

Quem responde é o padre [youtuber] Paulo Ricardo que grava e disponibiliza em seu canal vários vídeos de temas católicos, dentre os quais dois foram selecionados para essa postagem.

No primeiro ["Posso batizar meu filho não sendo casado na Igreja Católica?"], o religioso fala o seguinte:
"Como mãe e mestra, a Igreja sempre acolhe seus filhos e não seria diferente para com essas crianças. Para tanto, basta que os pais, ou apenas um dos cônjuges ou ainda quem, de forma legítima, fizer as suas vezes, consintam no batismo. Outro fato importante e que a Igreja recomenda é de que “haja fundada esperança de que [a criança] será educada na religião católica; se essa esperança faltar de todo, o batismo seja adiado segundo as prescrições do direito particular, avisando-se aos pais sobre o motivo." (CDC 868)


Já no segundo vídeo, falando sobre "Padrinhos Homossexuais", o padre diz que pessoas que vivem no "estado de pecado", ou seja, as que praticam relações sexuais fora do "sagrado matrimônio" - que significa a constituição de família por um homem e uma mulher -, não podem ser padrinhos de batismo de crianças. 

Ele continua: "Na união de dois homens não brota vida humana. Não é possível conceber, reproduzir, com dois homens ou duas mulheres", explicou o padre.

Paulo fundamenta seu argumento no livro canôn, segundo o qual essas pessoas "não levam uma vida de acordo com a fé e com o encargo que irão assumir [padrinhos ou madrinhas]".

Pelos argumentos do padre, chegamos então à conclusão de que os filhos de pais gays podem sim ser batizados na igreja, embora não possam ser apadrinhados por pessoas gays.

Então as igrejas que recusaram o batismo dos filhos do casal gay acima erraram? Sim. Novamente, padre Paulo Ricardo explicou.
"A criança, cujos pais não são legitimamente casados pode - e deve - ser batizada. Para tanto, basta que alguém próximo, normalmente a avó, tenha a reta intenção de educar a criança na fé católica e que um dos pais consinta, ainda que o outro se oponha. O que é indispensável, nesse caso, é que seja feita uma boa escolha dos padrinhos, pois, a eles caberá a missão de garantir à criança o acesso a uma educação católica e à Igreja."
E isso se estende aos pais homoafetivos?  

Segundo o padre,  a "normativa da igreja se direciona a todas as pessoas, sejam elas homossexuais, bissexuais, heterossexuais, transexuais, o que sejam".
"A Igreja não tem normas específicas a respeito dos homossexuais, ela tem uma norma geral onde cabem, dentro dessa norma,  todas as pessoas heterossexuais ou homossexuais. Por isso não cabe aqui acusação de discriminação porque aqui todos que estiverem fora do sagrado matrimônio e que exerçam uma vida sexual costumeira e ativa, não podem exercer o encargo de padrinho".
Há vários outros vídeos com temas LGBT no canal Padre Paulo Ricardo, mas não deu para ter certeza se algum especificamente aborda o batismo de filhos de pais LGBT. Caso não haja, o padre poderia gravar um. Fica a dica.


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