Confira tudo a respeito dessa campanha sob a ótica de Mark S. King, homem que vive com HIV há 35 anos. Ele se descreve um cidadão inteiramente reconhecido e consciente de sua capacidade de amar sem transmitir o vírus para quem ama.

"Nós não somos sujos, não somos uma ameaça, e não somos vetores de doenças".

Com essas palavras, o Dr. Richard Wolitski, diretor do escritório de HIV/ AIDS e Política de Doenças Infecciosas do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, arrebatou a multidão presente numa conferência sobre Aids nos Estados Unidos. Ele se referiu aos homens HIV+ com cargas virais indetectáveis.
"As pessoas que vivem com o HIV e que conseguem a supressão viral, ou seja, que se tornam indetectáveis, são a solução para o fim de novas infecções pelo HIV".
As observações finais de Wolitski causaram uma comoção na plateia. 

Esse é realmente um momento notável. Vários estudos em andamento (HPTN 052 e PARTNER) demonstram que pessoas que vivem com HIV, que tomam os antirretrovirais e reduzem suas cargas virais para níveis indetectáveis, ​​não transmitem o vírus para seus parceiros HIV negativo.

O que muitos de nós acreditávamos há anos ficou comprovado que é verdade! É uma ótima notícia e uma grande razão para buscar tratamento e se manter nele. Não há nada como uma relação sexual ao natural com seu parceiro fixo para recompensar você por estar indetectável, estou certo?

No entanto, há uma corrente que resiste em equiparar o indetectável ao intransmissível. E não é pelo motivo que você deve estar pensando.

1. O risco nunca chega a zero?

O estudo da PARTNER registrou 58 mil atos de penetração sexual sem preservativos em 1.000 casais sorodiscordantes (onde um é HIV positivo e um soronegativo), nos quais os parceiros HIV positivo apresentavam carga viral indetectável. Não houve um único caso de transmissão entre os casais. Zero.

Os mesmos resultados foram relatados no estudo HPTN 052, no qual 1.763 casais sorodiscordantes dependiam apenas dos antirretrovirais de um parceiro como método de prevenção do HIV. Absolutamente nenhum caso de transmissão de HIV foi documentado. 
Como disse Dr. Wolitiski em seu discurso na USCA:"este é um momento de mudança na história da epidemia do HIV".
O argumento da corrente discordante é que nada realmente é sem risco, estatisticamente falando. Mesmo que o risco seja minúsculo - digamos, o equivalente a ser atingido por um raio duas vezes - ainda é um risco.

Em outras palavras, os cientistas que discordam levam em consideração que, na prática, embora indetectáveis, essas pessoas HIV+ ​​podem desenvolver a carga viral se deixarem de aderir ao tratamento ou se elas se tornarem resistentes a um de seus medicamentos, e então podem transmitir o vírus.

Mas isso não diminui a força da mensagem de que pessoas indetectáveis ​​não podem transmitir HIV. Se elas permanecerem em tratamento e indetectáveis, não transmitirão HIV. Podemos simplesmente celebrar esse fato por um momento sem desqualificá-lo com possibilidades remotas?

2. Nem todas as principais organizações de HIV estão integradas.

Algumas organizações têm relutado em concordar, citando um risco teórico de infecção. Uma conferida nos sites e declarações das principais organizações de HIV mostra que não há consenso na afirmação de que pessoas indetectáveis ​​não transmitem HIV. Pior ainda, algumas organizações acentuam a possibilidade de transmissão por aqueles que são indetectáveis.

É no mínimo intrigante que essa grande descoberta [indetectável=intransmissível] possa ser recebida com ignorância e apatia por alguns coordenadores da saúde pública.

O ceticismo sugere que alguns daqueles que alcançaram a indetectabilidade não tenham aspiração de continuar tomando os medicamentos - ou de visitar seu médico regularmente - para garantir que o tratamento ainda seja eficaz.

Enquanto isso, líderes de saúde pública, tanto do Departamento de Saúde de Nova York como do Instituto Nacional de Saúde, abraçaram essa descoberta e seu significado para pessoas com HIV. 

A Campanha de Ação de Prevenção e sua mensagem produtiva "U=U" ('undetectable equals untransmittable' ou, em tradução livre, indetectável é igual a intransmissível), foi fundada nos esforços de um homem chamado Bruce Richman.

Richman entrou em cena na defesa do HIV há apenas alguns anos, aparentemente do nada, hasteando a bandeira da indetectabilidade. Ele reuniu assinaturas de especialistas em saúde de todo o mundo para declarar o consenso sobre a pesquisa, enquanto organizações de HIV norte-americanas adotaram uma linguagem que elimina o estigma da infecciosidade de pessoas que são indetectáveis.

3. Abraçar a causa U=U levará a mais DSTs?

Questões coadjuvantes muitas vezes se rastejam em debates em torno da prevenção do HIV, como o medo de que a campanha U=U leve a mais infecções sexualmente transmissíveis. (Argumentos semelhantes vieram de críticos da PrEP [profilaxia pré-exposição], da pílula anticoncepcional e de outros veículos que podem levar a um prazer sexual descontrolado).

As taxas de DSTs - que já estavam subindo antes do advento da PrEP ou das notícias do estudo PARTNER - são profundamente preocupantes. Temos uma necessidade desesperada de programas abrangentes de saúde sexual, com certeza. Mas, em última análise, a questão é sobre a não transmissão do HIV e não sobre sífilis. Ser indetectável ao HIV não impedirá outras infecções, nem abordará a promiscuidade, nem removerá manchas difíceis.

Outros defensores estão preocupados com a divisão da comunidade, ou seja aqueles que são HIV positivo ou não, que estão na PrEP ou não, e agora incluiu-se na lista aqueles com HIV que são capazes de atingir a supressão viral ou não - que inclui as pessoas HIV+ incapazes de se tornar indetectáveis apesar de seus esforços.
Independentemente ou apesar dessa tese de compartimentação, há um bem maior: eliminar a vergonha e o estigma daqueles que não são mais capazes de transmitir o HIV. Isso não deve ser minimizado. 
Em vez de procurar desanimar essa evolução, devemos celebrá-la e continuar nossos esforços para ajudar pessoas com HIV a suprimir suas cargas virais para níveis indetectáveis.

4. Apoiar a campanha U=U poderia corrigir as falhas na legislação sobre criminalização do HIV.

Um trabalho muito importante vem sendo feito para revogar e reformar as leis de criminalização do HIV que processam pessoas com HIV por não revelarem seu status a um parceiro sexual.

A principal tese de defesa é que muitas vezes o réu nunca colocou seu o parceiro em risco, devido a sua preocupação e efetivamente ao uso de proteção ou ao fato de que ele, o réu, era indetectável na época e portanto inofensivo.

Naturalmente, ainda temos o ponto de que HIV não é uma sentença de morte que os legisladores zelosos uma vez imaginaram que fosse. Mas pense na satisfação dos promotores ao fazer apologia à indetectabilidade, se as próprias organizações de HIV ainda insistem em dizer que "risco zero" é estatisticamente impossível.

Um promotor pode usar esse argumento para explicar a um júri, por exemplo, que João Positivo, de fato, representava um risco para seu parceiro sexual e, portanto, deve ser preso por fazê-lo. Coloque essa dúvida nas cabeça do jurado, e alguém com HIV pode ser condenado com uma sentença de 30 anos por se atrever a ter relações sexuais.

5. Isso pode alterar profundamente o modo com o qual pessoas HIV+ se vêem.

Internalizar a informação de que a pessoa com HIV não transmite o HIV [U=U] tem um efeito que é difícil de descrever. Podemos compará-lo ao dia em que a Suprema Corte votou pela igualdade de casamento. Naquele dia, intelectualmente, um homem gay passou a ser um humano digno de direitos iguais. No dia da decisão do tribunal, andei pelas ruas do meu bairro com cabeça erguida. Algo tinha mudado. Eu me sentia inteiramente reconhecido.


Mark S.King é blogueiro de 'My Fabulous Disease' e autor dessa postagem.

Em meus trinta e cinco anos vivendo com esse vírus, nunca me senti assim em relação a ser HIV+. Eu mereço, assim como milhões de pessoas que vivem com HIV merecem. Fomos informados de que estávamos doentes, sujos, infecciosos e que éramos perigosos para aqueles que amamos.

Apoiar a campanha U=U pode começar a desfazer todas as mensagens estigmatizadas. Podemos manter a cabeça ereta, sabendo que não podemos transmitir o vírus para nossos parceiros.

De todos os argumentos, esse sentimento reforçado de auto-estima é o mais importante.

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